Passos ecológicos

Num belo dia de verão, há cerca de dois anos, minha amiga Mayara me entregou um dvd chamado The Biggest Little Farm ( A maior fazendinha). Retratado na capa estavam um galpão vermelho enferrujado e animaizinhos da fazenda, tão fofos que pareciam ter sido retirados de um livro infantil.

'Você TEM que assistir isso.' - ela disse - 'Vai adorar!'

Apesar de seu entusiasmo, nem lembrei que estava com o dvd até algumas semanas depois, quando, encontrando-me sem compromisso em casa, decidi finalmente pedir ao meu namorado que instalasse nosso dvd player, há muito esquecido ejuntando poeira no armário, para uma noite de cinema aconchegante. Não o havia convencido muito quanto a escolha de filme, mas eu ansiava por uma história doce e leve que relembrasse minha amizade com as amigas.



Pode soar um pouco estranho, especialmente para uma bailarina de trinta anos como eu, mas minhas amigas mais próximas da companhia costumavam me chamar de 'sheep' (ovelha), e elas também tinham apelidos carinhosos de animais. Sonhávamos em ser coproprietárias de uma casinha no campo repleta de natureza e de bichos, onde provavelmente eu passaria meus dias lendo e escrevendo sem tomar conta de nada. Mas pelo que pude perceber depois de assistir o filme, viver numa fazenda sustentável exige muito, mas muito trabalho e compromisso.

The Biggest little Farm era muito mais do que uma história boba com final feliz; era na verdade a incrível jornada verídica de um casal que abandonou sua casa na cidade de Los Angeles para construir uma fazenda sustentável em terras mortas e abandonadas, aprendendo com o tempo e própria experiência como cuidar dos negócios. Quando o filme acabou, eu estava em prantos. Havia aprendido como tudo pode coexistir em perfeita harmonia, se apenas os humanos fossem mais pacientes (e confiassem, como Molly e John) e não interviessem brutalmente no trabalho da natureza. Depois de oito anos enfrentando muitas dificuldades, eles conseguiram recriar o equilíbrio perfeito da natureza e construir uma fazenda orgânica com produtos para serem vendidos e consumidos. Como eu gostaria de viver em um lugar assim!



A agenda maluca de uma bailarina - aula logo cedo e apresentações tardias - não nos permite nem mesmo ter um cachorro, muito menos cuidar de uma fazenda! A imprevisibilidade da vida selvagem, como vejo em filmes e documentários, ensina que mesmo os "bandidos" têm um papel importante a desempenhar para manter o equilíbrio de nossos complexos ecossistemas. Mas isso me faz refletir sobre como nós, seres humanos, desequilibramos essa balança, e não há nada ou ninguém para nos impedir de fazê-lo.

Mesmo que morar em uma fazenda sustentável seja somente algo dos meus sonhos, comecei a me perguntar cada vez mais sobre a comida que comprava e de onde realmente vinha. Também fiquei mais ciente sobre mudanças climáticas e questões ambientais que surgiam em conversas de família e amigos. Felizmente, estou cercada por pessoas que realmente se preocupam em ser ecologicamente corretas e me encorajam a estar atenta a isso. Desde pequena, admirava o trabalho de meus tios Ronaldo e Rose, que são analistas ambientais e sempre protegeram a vida selvagem, e queria mesmo é ser veterinária. Uma onça pintada até já foi batizada de Isabella!


Lugar favorito - Yorkshire Dales
Atibaia, onde cresci.

Assistir A Life on our Planet (Uma vida no nosso planeta) de David Attenborough no ano passado também abriu meus olhos para a dura realidade sobre danos que nós humanos temos causado na natureza. O senhor Attenborough é um naturalista inglês de 93 anos que passou a vida fazendo programas e documentários sobre a vida selvagem, mostrando-nos as maravilhas do mundo e sua biodiversidade. Desta vez, seu documentário focou mais no impacto humano e nas mudanças devastadoras que vemos no meio ambiente hoje. Enquanto assistia, eu me perguntava: 'Como podemos testemunhar isso e não fazer nada a respeito?!'


Coastal path, Cornualha

Infelizmente, o velho provérbio "O que os olhos não veem, o coração não sente" é verdadeiro para a maioria de nós. Como Mayara disse certa vez, se não tivermos lembretes constantes bem diante de nós, podemos continuar com nossa vida cotidiana e esquecer do estrago e desperdício que causamos. Sempre voltei aos meus velhos hábitos e ao meu modo confortável de sobrevivência, mas talvez agora que nossas vidas tenham diminuído significativamente de ritmo, valha a pena tentarmos realmente dar ao nosso ambiente a atenção e valor que ele merece. Começaremos talvez por entender o que significa viver de forma sustentável.


Sustentabilidade . aquilo que é capaz de ser sustentado; em ecologia, a quantidade ou grau em que os recursos da terra podem ser explorados sem causar danos ao meio ambiente.

Ao tomar consciência dos meus próprios hábitos, parece que tenho um looooongo caminho a percorrer para poder dizer que sirvo de bom exemplo ou de ser uma ambientalista, mas se fosse começar a ajudar de algum modo, como seria? Não querendo me sentir amedrontada ou oprimida pelas muitas mudanças com as quais teria de me comprometer (se realmente for avaliar meu estilo de vida, encontraria tantos erros), decidi dar um passo de cada vez, porem querendo mudanças duradouras e acreditando que, mesmo minúsculas, todas fariam uma diferença.



Talvez o lugar mais fácil para começar seja olhar para sua vida diária, como ela se apresenta - quanto lixo você está criando?

No topo da minha lista estava a redução do desperdício de alimentos e apoio aos mercados ou feiras locais, pois parecia ser a meta mais atingível. Sempre levei sobras para o almoço do dia seguinte e quase não jogo comida no lixo. Não sei por que, mas dizem que puxei minha avó materna. Meu namorado diz que eu vivo ingerindo comida mofada! Recuso-me a jogar fora qualquer verdura ou fruta, a menos que seja absolutamente necessário, e admito não respeitar certas datas de validade. Entre as bailarinas, sou eu quem come aquelas bananas pretas que ninguém mais quer, ou quem leva o último pedaço de bolo antes de ser descartado. Às vezes me sinto como um pequeno aspirador de lixo.

Embora as coisas sejam mais caras em nosso mercado local por serem de origem orgânica, comecei a comprar mais variedade lá: ovos, pães, vegetais, iogurte, leguminosas, molhos e carne para nossos assados ​​de domingo. Kevin e eu mantemos uma lista de todos os ingredientes de que precisaremos para a semana para evitar comprar em excesso, e ele me ensinou a sempre carregar uma sacola de compras reutilizável. Sempre temos uma à mão. Na Inglaterra, as sacolas plásticas de supermercado custam 10 centavos, o que incentiva a redução de lixo plástico (recentemente aprendi que uma única sacola plástica leva 500 anos para se decompor).


Evitar o uso de qualquer plástico está na minha lista, assim como ficar de olho no meu consumo de energia e água. A água sempre foi escassa onde cresci pois ela vem de um poço artesiano, então me acostumei a tomar banhos rápidos e não deixar a torneira aberta desnecessariamente, mas nesse inverno inglês, é outra história. Tendo a ceder à tentação de passar séculos no chuveiro, deixando a água quente aquecer meu corpo. Não é essencial, eu sei, e pretendo melhorar.


Dugard & Daughters, nosso mercado local.

Nestes tempos de pandemia, tenho tentado comer menos carne e mais vegetais, pois ouço falar tanto de pessoas que estão mudando para uma dieta baseada em vegetais porque é melhor para o meio ambiente. Embora tenha sido criada no Brasil, a terra do arroz, feijão, batatas fritas e bife todos os dias e dos famosos churrascos, não sou tão ligada a carne vermelha em particular. Aprendi que comer menos carne pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa do sistema alimentar, conservar terra e água e assim por diante, mas ainda não estou comprometida em adotar uma abordagem radical. Posso estar completamente errada, mas acredito que comer um pouco de tudo faz bem para o nosso organismo.

Como tenho tido muito mais tempo para fazer experiências na cozinha, tentei algumas alternativas veganas e vegetarianas às nossas receitas habituais. Não posso esperar que meu namorado viva da 'dieta do grão-de-bico', como ele a chama, mas algumas das receitas foram aprovadas por ele e são fáceis de fazer, e acredito que minhas habilidades culinárias realmente melhoraram com meus pequenos experimentos. A maioria delas foi inspirada por Ella Mills, fundadora do Deliciously Ella.



Querendo implementar mudanças em todos os aspectos da minha vida, não apenas em casa, comecei a analisar as coisas de um ângulo profissional. O fato de ser bailarina faz com que me sinta tão distante de tudo que acontece no mundo exterior, e no minuto em que atravesso a entrada dos artistas, é como se estivesse entrando num outro planeta. As vezes acabo me esquecendo de tudo e me concentrando somente no trabalho. Vivemos em nossa própria bolha, sendo consumidos pelas preocupações e ambições egocêntricas do balé, mas por que não trazer o mesmo propósito de vida e os mesmos valores para o meu local de trabalho, onde passo a maior parte do tempo?


O Royal Opera House.

Tenho certeza de que há muito que nossa organização possa fazer como um todo, mas também há muito que cada indivíduo pode fazer em nossa rotina diária para garantir que estejamos protegendo o meio ambiente. A maioria de nós, bailarinos, carrega nossas próprias garrafas reutilizáveis, aquelas insuladas que mantem a água gelada, e isso já é um bom começo. Na verdade, é uma boa maneira de nos certificarmos que estamos nos mantendo hidratados. O teatro reduziu consideravelmente o uso de copos descartáveis, quase não os vejo mais.

Há alguns anos, nossa cantina começou a oferecer bebidas com desconto se você trouxesse sua própria caneca reutilizável. Comprei uma Keep Cup colorida porque estavam na moda na época, e assim que experimentei, soube por quê. Era muito mais agradável beber de sua xícara vítrea segurando na faixa de cortiça (à prova de calor). Até o café parecia mais gostoso! Também comecei a embrulhar meus sanduíches caseiros em embalagens de cera de abelha que me deram de presente, em vez de filme plástico.



Em casa, reciclamos tudo o que for possível, e lixeiras para reciclagem também podem ser encontradas por todos os corredores da Opera House. Você só precisa saber para que serve cada cor e fazer um ‘esforcinho’, pois nem sempre estão ao alcance. Por falar em reciclagem, entro em nosso vestiário todos os dias e me pergunto que destino aguarda nossa pilha cada vez maior de sapatilhas de ponta usadas dispostas num canto. Sei por experiência que fitas e alguns elásticos podem ser lavados e reaproveitados, como faço há muitos anos (mais por hábito e preguiça, para ser sincera, pois já estão cortados no tamanho que preciso), mas não estou tão certa de que as sapatilhas de ponta possam ser recicladas.


Ao lado da caixa transbordando de sapatilhas, vejo outra pilha de roupas indesejadas, principalmente roupas de balé antigas. Bailarinas gostam de trocar itens ou pegar coisas emprestadas umas das outras de vez em quando, mas é de partir o coração ver o quanto ainda é descartado, sem dono. Recentemente, percebi que nunca pensei nas minhas roupas, do que são feitas e de onde vêm, da mesma forma que faço com os alimentos que consumo. Aprendi que também existe uma ética de compras, e que marcas como Patagonia e Finisterre (com sede no Reino Unido) são marcas sustentáveis ​​que, por meio de colaboração e ideias inovadoras, fazem roupas duradouras a partir de materiais biodegradáveis, como bioplásticos, e encontram soluções para a indústria da moda que, hoje em dia, é a segunda maior poluidora do mundo. Como consumidores, nós temos um grande papel a desempenhar.



Minha amiga Annette – amante da natureza e grande artista, fundadora da buvolipaints - me contou sobre uma técnica eficaz que ela adquiriu para parar de comprar impulsivamente:

'Antes de comprar qualquer roupa, pergunte-se: vou usar isso mais de trinta vezes?'

'Por que trinta ?!' - perguntei.

Parecia um número pequeno para mim, mas depois de refletir, percebi que pelo menos metade do meu guarda-roupa é feito de roupas que não usei tantas vezes. Annette também disse que toda vez que compra uma nova peça de roupa, ela também leva para casa uma planta. Cercar-se de plantas e vegetação é a melhor maneira de nos lembrarmos da beleza, simplicidade e conforto que encontramos na natureza. Nos últimos anos, eu literalmente passei de ‘assassina de plantas’ (nem um cacto sobrevivia em minhas mãos) à criadora de uma selva na minha sala de estar, amando minhas plantas e cuidando delas com o maior carinho, e eu sinto que elas me amam de volta, o que me faz querer protegê-las e respeitar a natureza como um todo. Caminhar em um parque ou passar alguns minutos em um jardim é uma maneira adorável de se reenergizar e se sentir conectado.


Banho de chuva nas minhas bebês

Nunca me senti culpada ao comprar roupa de balé porque são roupas do meu dia a dia, o 'uniforme' de toda bailarina. Passo mais tempo em meus collants e meia-calças do que em qualquer outra roupa comum. Os bailarinos gostam de usar collant em cores e estilos diferentes, de se cobrirem em camadas e mais camadas de polainas, seja por razões práticas (manter nossos músculos aquecidos), parecer fashion (há também uma moda e estilo a serem seguidos no balé), ou simplesmente tentar nos esconder debaixo de roupas em dias vulneráveis. O problema é que acabamos acumulando muitas coisas de que não precisamos nem vestimos, gastando muito dinheiro e, o pior de tudo, comprando itens que não são sustentáveis.

Mas nem tudo está perdido para o mundo da moda no balé. Recentemente, conheci uma marca de roupas de dança chamada Imperfect Pointes de Manchester, no Reino Unido. Todos os seus produtos são feitos de fios de econyl, uma forma de náilon regenerado, e outros tecidos sustentáveis ​​que estariam poluindo a Terra, e as roupas podem ser recicladas continuamente. Também adoro a mensagem por trás do Imperfect Pointes: não há problema em ser imperfeito e levar as coisas devagar. Em parceria com Mayara, apoiadora oficial da marca, eles estão começando a fazer a diferença na forma como vemos e compramos nossas coisas de balé.

'Sustentabilidade não mais significa causar menos danos. É fazer o bem no mundo em que vivemos, de todas as maneiras que pudermos. ' - Mayara Magri

Com ela
em nossos collants 'Imperfect Pointes'

A busca pela perfeição às vezes pode nos deixar presos e inativos, com medo de cometer erros ou de não estarmos prontos para nos comprometermos totalmente, mas as poucas escolhas que fazemos, por menores que sejam, podem ter um impacto positivo no meio ambiente. Colocando a natureza no centro das nossas decisões parece ser o caminho para garantirmos fazer as melhores escolhas, e estas são metas dignas de se ter na vida.


Minhas amigas ecológicas Annette e Mayara, que me inspiram a ser melhor.

Sustentabilidade parece ser uma questão de proteger nossa saúde como sociedade, e saúde sempre vem em primeiro lugar, como temos aprendido (de maneira difícil). Acredito que os artistas são uma grande força para mudança, e talvez seja assim que eu possa me sentir mais conectada com o meio ambiente, servindo um propósito maior. Descobri que no balé, assim como na vida em geral, podemos e devemos progredir lenta e gradualmente, cair e saber se levantar, ser diferente daquilo que seja considerado normalidade. Dando um passo de cada vez, observe como você será inspirado a dar mais e mais.


'Cada um de nós deve fazer sua parte na criação de um mundo melhor, pois embora as pequenas escolhas que fazemos a cada dia - o que compramos, o que comemos, o que vestimos - possam parecer insignificantes, o efeito cumulativo de bilhões de pessoas tomando decisões éticas, começará a curar o mundo da natureza.' - Dr Jane Goodall

Dr Jane Goodall - Antropóloga inglesa, cientista, pacifista, ambientalista, mentora.

Saiba mais sobre:

Imperfect Pointes ballet wear

Finisterre outdoor clothing


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Para receitas veganas:

Deliciously Ella


Para pinturas com temas da natureza e desenhos inspiradores, siga @buvolipaints e veja seu site: Buvolipaints


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