Quando a vida nos dá limões

Sei que essas últimas semanas não tem sido fáceis para ninguém. Nós, como artistas performáticos, fomos definitivamente afetados pelo covid-19 e não poderíamos ter continuado nossos ensaios e apresentações. Mas não importa qual profissão, fomos todos forçados a nos adaptar. Nossos compromissos profissionais e privados foram subitamente interrompidos; no entanto, isso não significa que o mundo terminará amanhã (pode até acontecer algum dia) ou que não podemos aproveitar esse momento de pausa para apreciar outras coisas da vida. Na verdade, é uma grande oportunidade para tomarmos consciência de outros aspectos do nosso 'ser' que negligenciamos até agora ou buscar um interesse que sempre desejamos explorar se tivéssemos tempo. Mais fácil falar do que agir, eu sei bem.


No inicio da quarentena, estive em choque. Eu e meu namorado tínhamos acabado de voltar de Chamonix. Passamos o fim de semana com meu irmão e sua namorada, Carol, em uma primeira viagem sendo apenas nós quatro, sem meus pais. Ficamos em um airbnb aconchegante com vistas deslumbrantes das montanhas, comemos fondue e tomamos vinhos incríveis. Em Aiguille du Midi, com a vista do Mont Blanc, o mundo parecia tão pacífico. Picos brancos e céus azuis ao nosso redor até onde os olhos podiam ver. Agora percebo que essa era a calmaria antes da tempestade!!


Assim que cheguei em casa, recebi um email da gerência da companhia dizendo que todos os ensaios de segunda-feira haviam sido cancelados. Ainda fui ao teatro no dia seguinte, fiz uma aula com amigos achando realmente que devia me preparar para quatro atos de O Lago dos Cisnes daquela quinta-feira. 'Melhor não tirar outro dia de folga,' pensei. Difícil acreditar que os espetáculos seriam realmente cancelados. Estava em total negação. O Royal Opera House nunca fecharia!


Aiguille du Midi com Carol e Leo

Mas o teatro fechou sim suas portas. Estávamos apenas começando com as apresentações de O Lago dos Cisnes , um dos balés mais difíceis para as meninas na minha opinião. Não poderíamos estar mais na ativa. Passamos disso para de repente... parar completamente?! Tudo me pareceu tão surreal. Minha primeira reação foi: qual é o sentido de fazer qualquer exercício agora e tentar ficar em forma se ficaremos em casa por tempo indeterminado?! A segunda semana foi um pouco mais fácil, exceto que tive dor de estômago e má indigestão. Sei que isso geralmente acontece quando me sinto ansiosa, e todas essas incertezas definitivamente teriam aumentado as chances de uma gastrite. Longe de café e bebidas alcoólicas, apenas vivendo de batatas, cenouras e frango, minha vida parecia menos que ideal.


Cada um de nós tem sua própria maneira de lidar com as incertezas. Levando um dia de cada vez e lentamente aceitando uma nova realidade foi como consegui dar a volta por cima.


Meaghan Grace-Hinkis, Romany Pajdak, Elizabeth Harrod
Cygnets em O Lago dos Cisnes

Decidi focar em meus estudos. Tinha uma redação de duas mil palavras a fazer, e que prazer era ter essa distração! Fiquei feliz por finalmente ter tempo suficiente para dedicar à minha escrita, mas logo percebi que ter todo o tempo do mundo também não era boa idéia. Teria que planejar um horário, caso contrário ficaria sentada no computador o dia inteiro. Depois de terminada a redação, estava ansiosa por começar o que encerraria o curso, um texto de três mil palavras e o mais longo que já teria escrito.


A primeira tarefa era fazer uma leitura de Stardust de Neil Gaiman , minha primeira leitura de um romance ilustrado. Li algumas histórias em quadrinhos quando criança (Turma da Monica de Mauricio de Sousa eram meus favoritos), mas tinha a impressão de que os romances ilustrados eram compostos principalmente de desenhos, que as imagens distraíssem muito. Stardust me fez mudar de idéia. Além de desenhos lindos, fiquei cativada por seu conteúdo: a jornada que realizaria o desejo de um coração. Quem não se identifica? Um garoto parte em missão de capturar uma estrela cadente, promessa que fez a sua amante. Adorei o tema e mergulhei na tarefa com entusiasmo, apenas para descobrir alguns dias depois que a universidade estaria cancelando todos os trabalhos restantes. O que????? Eu me perguntava, egoisticamente, em como um aprendizado a distância também poderia ser afetado pelo covid? Todo esse tempo onde finalmente poderia me dedicar as redações, sem ter que editar trabalhos entre ensaios, sendo desperdiçado.


Sentindo-me bastante chateada, pensei em nossa ‘normalidade’, há muito comprometida. Quais seriam as coisas que gostaria de fazer em meu tempo livre se não houvesse meus estudos? Para começar, desde que iniciei esse curso, há três anos, parei de ler por puro prazer. Quanto ao meu pobre diário, andava completamente esquecido. Estava na hora de retomar meus velhos hábitos! Por que não levar as coisas um pouco além e começar um blog, como eu sempre quis?


Andava com essa idéia na cabeça há algum tempo quando vejo uma nova seguidora no meu Instagram. O nome dela era @ thedancepsychologist . A leitura de seu blog me inspirou, então enviei uma mensagem à ela dizendo como fiquei agradecida por sua visão sobre a saúde mental dos bailarinos. Iniciamos um diálogo, e foi quando ela me perguntou se poderíamos escrever um texto juntas, o que me levou a começar este blog!


Às vezes, é preciso apenas alguém para lhe dar um pequeno empurrão, uma palavra de incentivo, para ter a coragem de começar algo novo.


Livros que li esse ano para a universidade.

Inconscientemente, devo ter decidido ao longo desta quarentena que queria sair da minha zona de conforto pois tive muitas situações desafiadoras, a maior delas sendo desencadeada por meu querido amigo Rodrigo Almarales , que me pediu para gravar uma barra de balé para que pudesse publicá-la em seu Instagram @ dancewearroyale . Acredite ou não, eu nunca havia ensinado balé antes. É uma loucura se pensarmos que minha mãe dirigi uma escola de dança! Consegui me safar disso todos esses anos. Não foi por falta de incentivo de sua parte, nem de meu pai. Tudo se resumia ao meu medo de não ser boa o suficiente.


Sempre acreditei que não teria autoridade em uma sala de aula. Sou mais baixinha do que a maioria dos alunos, muito tímida e não falo alto e nem claro. Saberia como dar correções? Eu os faria detestar o balé? Parte dessa relutância resulta de uma admiração e respeito que tenho por todos os meus professores. Acredito que é preciso muito talento, amor e habilidade para ser bom professor, alguém que irá inspirá-lo e saber tirar o seu melhor. Tive a sorte de ter tido ótimos exemplos ao longo da minha formação e carreira: Marcia Lago, Toshie Kobayashi, Deborah Hess, Yoko Ichino, citando apenas alguns nomes. Mas isso também elevou os padrões didáticos para mim.


Foi preciso muito choro por parte de Rodrigo. Ele não aceitava um não como resposta, então tomei a decisão de enviar qualquer coisa, por mais simples que fosse, apenas para mostrar que havia feito um esforço. Preparei meu telefone, apertei o botão gravar e fingi fazer meu próprio aquecimento. Não consegui nem assistir a gravação. Sei que teria desistido, então enviei assim mesmo como estava e não contei a ninguém, exceto minha mãe. Fiquei muito surpresa quando Rodrigo disse que editaria e publicaria minha filmagem meia boca, e ainda mais surpresa quando minha mãe assistiu e disse que estava excelente! Confio em seu julgamento, ela sempre foi muito honesta (às vezes honesta demais). Tenho certeza que teria me dito para me maquiar, arrumar meu cabelo e parecer mais apresentável, mas acho que queria me incentivar e viu uma oportunidade não para ser a mãe crítica, mas para me pedir uma gravação também!!


"Você não tem nada a temer", disse ela.


Aula virtual com Ballet Marcia Lago

Sempre penso no quão incrível as pessoas me verem como uma bailarina inspiradora, mas e se não me vissem como uma boa professora? A verdade é que o medo do que os outros irão pensar nos impede de fazer o que queremos , ou nos convence de que não temos tanta vontade. Nunca gostei de ser julgada. Quando era pequena, chorava se alguém me apontasse o dedo ou risse de mim. Sentia-me tão envergonhada, e fui assim toda a minha vida! Provavelmente ainda choraria hoje se caísse na sala de aula e outros dessem risada. Mas, às vezes, meu desejo de superar novos desafios e crescer como pessoa fala mais alto. Em vez de focar nessa minoria que provavelmente irá me criticar ou zombar, escolho me concentrar naqueles que poderia inspirar ou ajudar.


Depois de dar um primeiro pequeno passo, outros seguem mais facilmente. As coisas começam a mudar; novas oportunidades aparecem para você continuar buscando cada vez mais, e então começa a se sentir bem consigo mesma e orgulhosa de ter sido ousada. A próxima barra de balé que ensinei foi uma sessão on-line no Zoom para as alunas da minha mãe, dessa vez pensando no que queria que elas aproveitassem, o que eu teria de único para dar (graças a algumas dicas maravilhosas de tia Lu, minha primeira professora de balé, que assistiu no @ dancewearroyale aquela primeira aula que gravei).


Desde então, mais oportunidades vieram para eu ensinar via Zoom. Tendo participado com o Ballet Marcia Lago antes, senti-me confiante o suficiente para aceitar os convites. Sei que não é o mesmo que ensinar presencial (como poderia ser?), mas é um pequeno passo que me fez sentir mais confiante com uma idéia que tanto temia. Dançar e ensinar são duas coisas muito diferentes.Não sei se tenho a vocação da minha mãe, mas estou disposta a tentar.



Imagens: Yoko Ichino (topo esquerda), Toshie Kobayashi (topo direita), Deborah Hess (embaixo esquerda), Marcia Lago (embaixo direita)

Levei um tempo para me sentir motivada para estar 'dançando' em casa, mas o primeiro dia em que tivemos nossa aula virtual foi suficiente para me colocar de pé novamente. Ao ver todos os rostos familiares de meus colegas espalhados pelo mundo, alguns reunidos com a família, fez com que eu lembrasse do que realmente importa: humanidade, amor, compaixão, todos fazendo a sua parte para proteger outras pessoas e seus entes queridos, todos nessa juntos! Foi tão bom ouvir música clássica e me movimentar novamente. Isso me fez perceber o quanto eu sentia falta de dançar e que efeito calmante a dança pode exercer em mim.


Dançar não é apenas exercitar-se fisicamente. Especialmente exercicios na barra, que lentamente nos prepara todos os dias, ajudam a nos conectar com nosso corpo e nosso ser interior. Quando você tira as preocupações do que está na sua agenda do dia, pode apreciá-la como um fim em si mesmo. Como minha querida amiga Mariana Rodrigues escreveu em seu blog ...


"Afaste os aspectos estressantes e não tão agradáveis ​​de nossos trabalhos, e uma oportunidade surge para relembrar das coisas bonitas nele."


Acredito no meu íntimo que, se você se permitir fazer coisas que o assusta, novas oportunidades surgirão e o levarão na direção certa. Aproveito esse tempo para explorar novos caminhos do conforto de minha própria casa, e isso tem sido gratificante. Sem a pressão de ser produtiva ou ativa, acabei por encontrar minha própria maneira de fazer uma limonada deste amargo momento. Há dias bons e ruins. Dias de sol são mais que bem-vindos! Talvez a maior lição a ser tirada de tudo isso é que não devemos tomar nossa existência por certa.


(Read Mariana's full blog at https://thedcd.org.uk/life-in-lockdown-a-unique-view-from-dancer-mariana-rodrigues/ )


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