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Tudo começou com o tutu da vovó

Durante toda a minha vida culpei minha mãe por ter me iniciado no balé, especialmente em momentos difíceis de carreira em que pensava 'Por que escolhi essa profissão?!' , 'Por que o balé exige tanto sacrifico?!’ Minha mãe, Marcia Lago, dançou profissionalmente com o Ballet Clássico de São Paulo, dirigido por Halina Biernacka . Quando nasci, era ainda muito ativa como bailarina, além de administrar sua própria escola, o Ballet Marcia Lago, desde os dezoito anos. É natural que ela me apresentasse ao ballet, e por mais que eu quisesse culpa-la por ter escolhido esse caminho para mim, as evidências mostram que desde criança, tudo o que eu queria fazer era dançar.


'A cada passo uma lembrança' 1985

Dizem que eu gostava de passar o tempo todo só de collant rosa e meia-calça. Meu vídeo favorito é um que estamos na maternidade no dia seguinte ao nascimento do meu irmão. Eu tinha três anos de idade e já fazia glissade pas de bourée pelo quarto, tão fofa com meu vestido branco de bolinhas alaranjadas, cabelo bem feitinho com um laço… passam-se algumas horas e apareço de cabelo todo bagunçado, só de calcinha, sapateando com uma bolsa que é o dobro do meu tamanho, fingindo ser Marry Poppins!


Temos filmagens tão preciosas, várias deu assistindo as apresentações da escola da minha mãe e tentando imitar os bailarinos na televisão. Lá estou eu, tentando copiar da melhor forma possível para uma criança de três anos, quando de repente, uma voz surge do além ...

' Vai , fica esperando . Ja vai começar .. vai . Olha lá ! Olha o bracinho . E o outro bracinho olha na mãozinha , hein ?! Isso amor . Agora aquele que vai pra frente. Isso ! Vai, bem bonita.'


Só para deixarmos registrado: talvez eu tenha recebido, sim, um leve empurrãozinho da minha mãe? No entanto, a gota d’água foi o dia em que minha avó Hilda me presenteou com um tutu de bailarina 'de verdade', que ela mesma costurara. Agora sim tudo estava perdido!



Cultivando o amor

Meu primeiro espetáculo no Ballet Marcia Lago foi Coppelia. Fui um dos brinquedos do Dr Coppelius no segundo ato, uma bonequinha de pano . Este balé viria a ocupar um lugar especial no meu coração, não só por ser a primeira vez em que me via frente ao público, mas por te-lo dançado bastante com minhas amigas ao longo de nossa adolescência, tanto que nos apelidamos 'as amigas de Coppelia'. Nossas apresentações de fim de ano eram sempre motivos de euforia, e para mim se tornaram a maior atração do ano! Adorava provar figurinos, ensaiar coreografias, e ansiava pelos dias caóticos de ensaio geral.


Por ser filha da dona Marcia, sentia o peso da sua responsabilidade e a preocupação de que tudo estivesse pronto. Quanto mais empolgada eu ficava com a chegada do grande dia, mais tensa e estressada ela ficava com mil coisas a serem feitas de ultima hora, costureira que não terminava roupas, cenário ainda a ser pintado... Seu desejo sempre foi de que tudo saísse impecável. Nunca fui grande ajuda aos meus pais com a parte técnica, mas quando chegava a hora do espetáculo, eu dava tudo de mim.


Coppelia 1991 com papai e mamãe

Foram anos felizes em que não haviam preocupações ou expectativas. Fazia sapateado, flamenco e jazz, além de balé. Era puro amor à dança! Minha mãe não foi minha professora logo de inicio pois só ensinava as turmas avançadas, mas estou certa de que ficava a par do meu progresso com tia Lú e tia Iglá. Eu e minhas amigas ficamos radiantes por finalmente chegar à faixa bordô e poder fazer aula com a tia Marcia. As faixas coloridas indicavam nosso progresso.


Minha dedicação a dança cresceu cada vez mais, e guardo uma pequena anotação que escrevi para mim mesma em 1997, aos 9 anos de idade.


Aprendendo com minha mãe técnica e expressão.

Logo comecei a ganhar papéis de destaque nas apresentações de fim de ano da escola. Todos deduziam que era por eu ser 'a filha da diretora', mas nunca fui tratada de maneira especial por isso. Muito pelo contrário! Quando nos comportávamos mal na aula, eu era sempre a primeira a ser repreendida e levada ao escritório. Uma vez sai da sala aos prontos e passei o resto do dia atras da escrivaninha da minha mãe, soluçando. Meus figurinos nunca ficavam prontos, já que ninguém ia tirar satisfação. Nada disso importava, mas o que me machucou mesmo foi o fato de que minhas amigas começavam a me dar as costas por toda a 'atenção' que eu recebia.


Parece até que estou dizendo que eram malvadas, mas não é bem isso. É natural que se comportassem dessa maneira, todos querem oportunidades. Superamos essa fase rapidamente e nossas amizades se fortaleceram. Acredito que foi então que decidi focar ainda mais em ser a melhor bailarina que eu podia ser, para que não houvessem motivos de fofoca ou reclamações. Eu merecia e ponto. Continuamos a dançar juntas por muitos anos, participando de várias competições da RV Promoções em Sao Paulo, Passo de Arte em Santos, entre outras.


Meu festival favorito era o de Campos de Jordão , onde comíamos fondue e fazíamos farra no quarto do hotel. Tia Marcia nos dava bronca pois deveríamos estar descansando e nos concentrando. Em Campos dancei minha primeira variação de repertorio. Fui Kitri e tirei uma nota horrorosa, mas me diverti dançando Tico-Tico no Fubá com Léo Sandoval.



Houveram também nossos dias de "celebridades". Éramos convidados especiais dos programas Pequenos Brilhantes e Bom dia & cia do SBT. Tenho tantas lembranças boas daquela época, das vans que vinham nos pegar, da maquiagem e cabelos feitos por profissionais, de esperarmos ansiosos pela chamada ao set (que podia ser a qualquer momento), de dançarmos com as câmeras em nossos rostos gravando quatro, cinco, seis tomadas (essa parte não era tão divertida), e de andarmos nos bastidores procurando famosos. No fim de um longo dia, degustávamos de um milk-shake de chocolate do Bobby's! Que vida boa, ainda mais tendo a desculpa de faltar na escola.


Nos bastidores do Bom Dia e Cia, SBT.
Tudo começa com a disciplina

Tinha 11 anos quando o coreógrafo Heloaldo Silva, um velho amigo de minha mãe, me viu dançar no festival de sapateado de Piracicaba. Percebendo que eu tinha muito talento e musicalidade, sugeriu que montássemos uma coreografia e que minha mãe me levasse para conhecer a renomada mestra. Fiz uma espécie de "audição" para Dona Toshie em sua sala de aula, com um solo preparado por Heloaldo, e ela concordou em me dar aulas particulares uma vez por semana.

Mestra Toshie Kobayashi 1946-2016

Todas as terças-feiras, eu e meu avô cruzávamos a cidade até São Caetano do Sul. Mesmo tendo levado um tempo para me ajustar à metodologia de Toshie, nós criamos uma parceria e tanto. Ela era muito rigorosa, para não dizer um pouco assustadora, e no começo eu chorava em todas as aulas. Chorava não por ter medo dela (talvez um pouco), mas por raiva e frustração comigo mesma por achar que não correspondia às suas expectativas.


A choradeira continuou por um bom tempo.. até eu ter que ouvir:


'Se você não parar de soluçar, vou ter que dizer à sua mãe que não podemos continuar com essas aulas. É isso que você quer, Isabella?'


Tive que engolir minhas lágrimas e amadurecer bem rápido, não queria parar por ali. Uma vez que Toshie viu que eu estava totalmente comprometida, ela me ensinou o que sabia de melhor e o que mais valorizo hoje.

'Você precisa ter disciplina, Isabella. Disciplina é tudo.’

Essa era sua filosofia: você colhe o que planta. Eu não me via como super dotada de flexibilidade, colo de pé absurdo, naturalmente en dehors ou nada assim. Ela me fez acreditar que, se eu trabalhasse diligentemente, conseguiria qualquer coisa. 'TÉCNICA, Isabella!', costumava dizer. Houveram dias em que me sentia tonta e enjoada do calor e tanto esforço físico, e ela me dizia para sentar, por a cabeça entre os joelhos, até me sentir bem o suficiente para continuar.  Seu lema era "Chore hoje para que possa sorrir amanhã".


Toshie me ensinou a importância das aulas de balé. Dizia que a platéia podia notar se você não faz aula todos os dias. Tenho uma longa lista de frases que ela costumava dizer e um oceano de lembranças, mas não possuo uma única foto de nós duas trabalhando juntas. Está tudo guardado aqui, dentro do meu coração. No entanto, tenho um rascunho de um cartão de aniversário que devo ter escrito para ela no ano em que nos conhecemos.

Concentração é essencial

Quando comecei a competir no balé, me comparava muito com os outros e me sentia muito insegura. Percebi, com o tempo, que se focasse em mim mesma, poderia evitar me sentir intimidada. Minha mãe sempre me incentivou a evitar dramas e fofocas, a concentrar-me apenas em me aquecer e me preparar, e não no que os outros estavam fazendo. O balé, em especial um espetáculo, exige um alto nível de concentração. Isso foi sempre enfatizado pelos meus professores. Toshie costumava nos fazer ficar em balance por longos minutos em passé ou arabesque, no final de praticamente todos os exercícios da barra, querendo que alcançássemos um estado meditativo de calma e controle. Ela propositalmente começava minhas variações com um equilíbrio na ponta em quarta ou quinta posições. Às vezes, a música não começava imediatamente e eu tinha que me equilibrar pelo que parecia uma eternidade! Foi uma boa maneira de trazer o meu foco àquilo que estava prestes a fazer.


Meu primeiro grande festival foi o Festival Meia Ponta de Joinville. Chegando no ensaio de palco, vi uma garota da minha idade fazendo saltinhos na ponta em arabesque e girando cinco piruetas. Lembro de pensar .. 'que diabos estou fazendo aqui ?!' Alguns dias depois, no auditório do Centreventos Cau Hansen, minha mãe e eu esperavamos ansiosamente pelos resultados da minha categoria. Quando revelaram que eu havia conquistado o primeiro lugar, ficamos super felizes!!! Duas malucas se abraçando e gritando no meio de um enorme ginásio coberto cercadas de milhares de pessoas. Mal podíamos esperar para contar à vovó Nilva e tia Cida , nossas companheiras de viagem, que esperavam no carro. Eu já havia participado de muitos outros festivais, mas esse era um evento internacional, sem falar no fato de termos viajado oito horas de carro para chegar até lá.


Competindo em Joinville pela segunda vez em 2001

É algo estimulante sentir o seu talento reconhecido por pessoas fora do seu círculo de amigos, familiares e professores. De repente, tudo se tornou mais real. Eu me senti a bailarina que sempre quis ser, mas nunca fui muito confiante. Sentia uma necessidade constante de aprovação, alguém para me dizer que eu era boa e que isso não estava apenas na minha cabeça. As competições eram divertidas, pois comecei a receber muitos elogios, mas mal sabia eu que estava pisando em gelo fino.

Foi então que comecei a ficar ansiosa demais antes de subir ao palco, e chorar toda vez que via alguém que considerava melhor do que eu a se apresentar logo antes de mim. Há momentos difíceis na vida de uma jovem bailarina e, após duas medalhas de ouro nos Festivais Meia Ponta e anos se destacando nos palcos da vida, o 20º Festival de Dança acabaria sendo uma grande decepção.


Perseverança, o segredo dos triunfos

Agora que competia no palco principal do Centreventos Kau Hansen, sentia o peso da responsabilidade, e Toshie não estava ajudando. Ela dizia que haviam olheiros nos seguindo o tempo todo, dentro e fora do palco. Não é à toa que fiquei tão paranóica! Eu lutava contra a vozinha na minha cabeça me dizendo que eu tinha que me sair bem, tinha que provar que era boa. Até que saí contente do palco e satisfeita com minha apresentação, mas peguei segundo lugar no solo livre (não houve primeiro) e penúltimo lugar com a variação de Aurora. Alem disso, o nosso conjunto Gavotte também não recebeu nenhuma classificação e nos sentimos muito injustiçadas.

Comecei a me perguntar por que haviam dias em que não achava que tinha me saído tão bem e ganhava boas notas, e dias em que pensava ter me saido super bem e não me classificava. Isso me ensinaria uma lição importante: os resultados não significam nada! E não importa o que as pessoas pensam também! O que importa é que você fez o seu melhor, e que se se sinta feliz por dentro. Não é bom focar-se em resultados. O melhor é encarar tudo como uma experiência, um aprendizado.


Eu me recuperei do choque e logo comecei a preparar seis variações clássicas e dois solos contemporâneos para o Premio Cecilia Kerche , evento organizado pela Stars Dance e realizado em Osvaldo Cruz. Naquele ano, teriam um júri internacional, e esse pequeno detalhe inesperadamente mudaria o curso da minha vida para sempre. Eu conquistaria o segundo lugar e seria uma das primeiras bailarinas a representar o Brasil no Youth America Grand Prix de Nova York, onde ganharia medalha de ouro e uma bolsa de estudos para estudar no exterior.


Prêmio Cecilia Kerche em Osvaldo Cruz, 2002
Ter humildade

A única vez em que realmente senti fazer Toshie orgulhosa foi depois de ganhar o YAGP. Foi a única vez em que me lembro tocarmos no assunto ‘resultados’ e comemorarmos. Toda vez que eu ganhava um festival, dona Toshie parecia não dar a mínima bola. Ela começava a me ignorar nas aulas. Geralmente ficava em cima de mim, dando correções e gritando meu nome pela sala, mas de repente ela começava a fingir que eu simplesmente não existia. Isso me incomodava muito, eu sempre me perguntava se tinha feito algo para chatea-la, mas concluí que isso era apenas sua maneira de dizer que não se importava com medalhas e que havia ainda muito trabalho pela frente. Ela não queria que o sucesso subisse à minha cabeça.

'Trabalhe com honestidade e seja sempre humilde, Isabella'

‘A união entre a experiência e dedicação da Mestra Toshie Kobayashi ao talento e esforço de Isabella, fez com que os resultados desse trabalho surgissem…’



O ballet exige um trabalho constante, e ser humilde é permitir-se continuar aprendendo, admitindo seus pontos fortes e fracos e trabalhando duro para melhorar. Ninguém é melhor ou merece mais do que ninguém. Se você trabalhar com honestidade e diligência, as pessoas saberão quem você realmente é.


Olhando para os meus primeiros passos como bailarina , percebo o quão longe cheguei! Quando vejo essas fotos, todas as emoções que senti naquela época ressurgem. Em nossa vida cotidiana, raramente paramos para refletir sobre nossas experiências e lições passadas e sobre os sonhos que carregamos na infância. Já os realizamos? Vale a pena lutar por mais?

Acabei de ler as memórias de Michelle Obama em Becoming e descobri muitas coisas de que me identifiquei. Algumas passagens de seu epílogo:

'Tornar-se [algo ou alguém] é nunca desistir da ideia de que há mais a ser feito.'

“Existe grande poder em permitir-se ser reconhecido e ouvido, em possuir sua história única, em usar sua voz autêntica. E há graça em estar disposto a conhecer e ouvir os outros.’


Obrigada por permitirem compartilhar a minha história. E agradeço aos meus pais que tem me enviado tantas imagens e fotos.


Como um último presente, meus pais encontraram um vídeo que montamos dezesseis anos atrás.



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