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A Eterna Mestra

  • 29 de abr.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 16 de mai.

Este mês de maio marca dez anos desde o falecimento da nossa querida mestra Toshie Kobayashi. Para mim, no entanto, parece que ela nunca nos deixou. Ainda consigo ouvi-la cantar na sala de aula, imagino suas unhas afiadas cravando em minha pele toda vez que penso em relaxar a musculatura da perna de base. Seus ensinamentos continuam tatuados em cada fibra de meu corpo, e cada respiro mais profundo que dou no palco, lembro-me de toda a força que ela monstrou vir de dentro de mim.


Dizem que quando o aluno está pronto, o professor aparece. E assim foi conosco. Eu e Toshie nos conhecemos por um golpe de sorte, no momento em que ganhava maturidade e percebia o quanto gostava de balé, o quanto queria me dedicar à dança como algo mais do que um hobby. Em um festival de dança em Piracicaba, o coreógrafo e amigo de longa data da minha mãe - Heloaldo Silva - reconheceu meu talento e, após alguns dias trabalhando comigo, disse à ela:


" Marcia, você precisa levar esta menina até a Toshie!"


Logo descobrimos que Toshie não aceitava qualquer um, e que para chegar à renomada mestra não seria assim tão simples.


Toshie Kobayashi 1946 - 2016
Toshie Kobayashi 1946 - 2016

Morávamos em Atibaia, cidade localizada a aproximadamente 65km da capital e conhecida como a "Terra dos morangos e das flores". O caminho até a Escola de Ballet Toshie Kobayashi, em São Caetano do Sul (SP), era longo. Levaríamos de uma hora e meia a duas horas, dependendo do trânsito, uma jornada que ao longo dos anos faria parte do meu cotidiano.


Mas antes de mais nada, teríamos de convencê-la de que esse encontro valeria seu precioso tempo e de que não éramos mais uma família de pais iludidos implorando por aulas particulares cuja jovem filha sonhava em ser bailarina.


Com Leo Sandoval e Holaldo Silva em Piracicaba
Com Leo Sandoval e Holaldo Silva em Piracicaba

Ao telefone, Toshie respondeu com firmeza que havia se aposentado e que não tinha interesse em perder tempo com mais um "jovem talento", mas no fim acabou aceitando dar uma olhadinha sem compromisso. Marcamos um ensaio em sua escola para a semana seguinte.


Mal sabendo quem ela era e no que estava me metendo, apresentei com leveza um novo solo criado por Heloaldo que pretendíamos levar para os grandes festivais de dança do país, como o Passo de Arte e o Festival de Joinville. Aquela audição determinaria meu futuro... após me assistir, Toshie concordou em me dar aulas particulares uma vez por semana desde que eu respondesse bem ao seu trabalho.


Acredito não a ter surpreendido tanto com minhas habilidades técnicas ou físicas, mas sim a conquistado com meu sorriso e entusiasmo. Ela possuía uma percepção diferente do que é ser artista e apreciava quem demonstrasse carisma, força de vontade e qualidades que iam além de dotes físicos, como a musicalidade. Deve ter notado certa sensibilidade e aptidão na menininha de onze anos que subia desajeitada nas pontas...


Passeando nas Pontas - Festival Meia Ponta 2000
Passeando nas Pontas - Festival Meia Ponta 2000

E então, todas as terças-feiras, dona Toshie (assim todos a chamavam) aparecia ao camarim com seu cigarro na mão, me dizia boa tarde esboçando um sorrisinho de boas-vindas um tanto malicioso, e me esperava paciente em sua sala. Logo que pedia licença ao entrar, ela já me vinha com suas perguntas.


" Vai chorar hoje, Isabella?? "


" Não, dona Toshie," eu respondia, toda sem graça, rezando para que isso fosse verdade.


Quantas tardes dolorosas não passei ao seu lado onde me perguntava se era isso mesmo que eu queria e ameaçava dizer à minha mãe que desistiria de me dar aulas se eu não parasse de chorar. A pequena Isabella, já desolada, tentava se recompor rapidamente e continuava se esforçando em meio a soluços incessantes.


Não sei se chorei tanto quanto me lembro ou se apenas tinha aquela sensação constante de estar prestes a desabar em lágrimas, frustrada comigo mesma pois queria atender às suas expectativas. E ela não tinha pena, não. Não dava moleza! Até que fui me acostumando, e o medo e frustração que sentia aos poucos transformaram-se em admiração e respeito.


" Quero ver você chorando hoje para sorrir amanhã, " dizia.


Hoje entendo a verdade de suas palavras.



Dona Toshie logo me fez ver que talento não é tudo. Para ser bailarina é preciso muito amor à arte e dedicação, algo que de certa forma me conforta. Ao mesmo tempo que, ao seu conceito, a dança escolhe poucos, ter o dom seria só o começo...


" Quero ver você tremer de força, Isabella! Quero ver seus músculos trabalhando e sua perna de base tão resistente quanto esta barra aqui óh .. " e batia com toda a força na barra demonstrando o quão forte minha musculatura deveria ser. Eu tinha a sensação de que quanto mais força fazia, mais e mais ela exigia, e mais queria lhe provar que estava disposta a trabalhar duro.


Com Toshie e Ismael Guiser em Porto Alegre, 2001
Com Toshie e Ismael Guiser em Porto Alegre, 2001

Suas aulas consistiam em exercícios de resistência, flexibilidade e equilíbrio. Sempre começávamos com o mesmo aquecimento frente à barra - alongamento, cambres , closh para frente e para trás em attitude, e tendus. Repetíamos a maioria dos exercícios duas vezes de cada lado, com pequenas variações de tempo e dificuldade, como fazer tudo na meia-ponta. Ao final de cada exercício havia sempre um longo balance, uma espécie de meditação que nos forçava a focar, respirar fundo e resistir a tentação de pegar na barra. Pareciam intermináveis e eu chegava a tremer toda, sentia o suor escorrer por minhas costas e a visão embaçar. Muitas vezes sentia vontade até de vomitar.


Variação de Swanilda, Passo de Arte 2001
Variação de Swanilda, Passo de Arte 2001

Seu método instigava preparo físico e mental e nos moldava como um todo. As aulas de balé eram sagradas para dona Toshie. Dizia que o público perceberia se faltasse em aula ou não me dedicasse por inteiro, ensinando que as coisas que importam são mesmo difíceis. Se queremos ser alguém ou fazer coisas que importam, isso exigirá muito esforço.


" A disciplina é tudo, Isabella. A única maneira de continuar evoluindo é fazendo uma, duas, três aulas por dia. Técnica, muita técnica! "


Passei a frequentar sua escola todos os dias, menos aos fins de semana, quando aproveitava para me recuperar. Fazia uma aula particular, ensaiava os solos repetidamente e logo em seguida emendava com outra aula completa em grupo. Chegava em casa a altas horas da noite, completamente exausta, ainda tendo que estudar para as provas escolares. Foi um período super intenso mas eu curtia a sensação de estar trabalhando o meu máximo, gostava até de me sentir cansada e era motivada pela convicção de que fazia tudo o que podia para me tornar uma grande bailarina.


Hoje em dia quantos questionariam sua abordagem de trabalho e diriam que era muito severa ou exigente? Seria bom para uma jovem de catorze anos fazer tanto esforço físico, tanta repetição a ponto de estar propensa a lesões? O que posso dizer é que funcionou para mim, e que neste processo, desenvolvi a força e resiliência necessárias para as exigências de uma vida profissional na dança.


Curso no Festival de Joinville, 2002.
Curso no Festival de Joinville, 2002.

Um professor carrega tamanha responsabilidade. Cabe à ele saber o limite de seu aluno, entender que somos todos diferentes e que respondemos a diferentes estímulos, e respeitar a saúde física e mental de cada um.


Acredito que, em uma parceria entre professor e aluno, também é necessária muita confiança. Dona Toshie depositava sua confiança em mim (apesar de ter sua maneira especial de demonstrá-la) e eu a admirava, respeitava e teria feito qualquer coisa que me pedisse. Tinha plena confiança em seu trabalho e de que sabia o que era melhor para mim, mesmo quando algo parecia impossível.


Bluebird Premio Cecilia Kerche, 2002
Bluebird Premio Cecilia Kerche, 2002

O que mais aprecio hoje em minha relação com a dona Toshie é que ela soube exatamente como extrair o melhor de mim, me dando a força e determinação necessárias para que eu conquistasse o meu lugar no mundo da dança. Ela me ajudou a perceber que, com trabalho e dedicação, eu podia ir muito além do que imaginava. O que me faltava era autoconfiança, e isso ela mesma tinha de sobra! Isso me impulsionou e mostrou um caminho onde pude superar meus medos.


" Força menina, vai ! Calma , tranquila , fria Isabella. "

 

" Isso ! Bem , bem ... agora, calma ."


Dona Toshie não era distribuidora de elogios, pelo menos não enquanto fui sua aluna. Um dos pilares de seus ensinamentos era a humildade e acredito que não quisesse que o "sucesso" subisse à minha cabeça. No último ano que trabalhamos juntas, passou a me apresentar aos seus colegas como "a futura", o que me deixava radiante, porém de volta à privacidade de sua escola, eu frequentemente me perguntava se havia feito algo errado para chateá-la. Qual seria o motivo de me tratar com tanta frieza? Ela chegava a me ignorar em aula, ou simplesmente não fazia nenhum comentário nos ensaios, e isso me chateava.



Mas em 2003, logo que voltei do YAGP com a medalha de ouro e convites para estudar no exteriror, sabíamos ser o fim de uma era e o início de um novo capítulo. Só então me lembro senti-la emocionada e muito orgulhosa, e mesmo assim enfatizava que o verdadeiro trabalho só estava começando.


Em nosso dia de despedida, me presenteou com um coelhinho de pelúcia que dei o nome de Toro, e uma agenda vermelha para tirar o mal olhado (era bem supersticiosa) pois sabia que eu gostava muito de escrever. O que mais desejei então é que soubesse da minha gratidão por tudo o que fez por mim, e do quanto eu sentiria sua falta.



Continuei a encontrá-la quando em férias no Brasil e ela sempre me recebia de braços abertos, demonstrando o maior carinho e me elogiando à todos a ponto deu querer me esconder! Relembrávamos nossos dias em São Caetano com ternura, e toda vez que contava uma história, era com um pingo de exagero em tudo.


Certa época cismou em dizer a todos que eu era bailarina do Royal Ballet de Londres, quando na verdade eu ainda dançava no Northern Ballet, uma companhia inglesa que fazia turnês por várias cidades e que não tinha base em Covent Garden. Eu é que não ousava corrigí-la. Talvez já soubesse do que eu era capaz, tivesse um sexto sentido ou um feeling do futuro. Sempre dizia para eu ser corajosa, cultivar respeito e amor próprio, dizer em frente ao espelho "Eu sou linda!" .. "Sou maravilhosa!" ... afirmações que ela mesma admitia repetir.



Pouco tempo depois, entrei sim no Royal Ballet! E aqui estou até hoje, dançando como primeira solista de uma das maiores companhias do mundo. Quando me juntei ao corpo de baile do Royal, pude lhe contar e dizer que tinha enfim realizado esse sonho, graças às lições aprendidas e a determinação que havia instigado em mim desde pequenina.


Não me lembro qual foi a última vez que nos despedimos, mas talvez seja melhor assim. Sempre me lembrarei dela forte, cheia de luz e esbanjando energia, e tenho absoluta certeza de que é assim que gostaria que todos nós nos recordássemos dela. Sua passagem na Terra nos pareceu breve, mas seu legado e exemplo se perpetuarão por gerações e gerações.


Fada Outono em Cinderella - The Royal Ballet
Fada Outono em Cinderella - The Royal Ballet

'Você é tudo que acredita ser…

Embora tenha potencial para ser muito mais ,

Só vai poder mudar quando acreditar em si

E se aceitar diferente .'


 
 
 

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