O que a dança significa para você?

A dança é uma forma de expressão que existe desde o início da civilização. Nossos ancestrais já dançavam para os deuses em inúmeros rituais religiosos, representando a vida e a morte, expressando algo que transcende o poder das palavras. Mas na vida contemporânea, a dança se tornou uma forma de existir. E aí me pergunto: por que dançamos? Por que dançar faz parte de nossas vidas, independente de ser profissão ou não? Alguns de nós sentem vontade de 'se soltar’ nas baladas, alguns optam por passar suas preciosas noites de folga assistindo a um belo espetáculo de dança, outros se tornam bailarinos...

Na quarentena, muitas pessoas procuraram por aulas de dança online como forma de se exercitarem, de se divertirem e se sentirem unidos. A Royal Opera House transmitiu espetáculos como The Winter's Tale e Anastasia e milhares de pessoas se conectaram. A dança está desempenhando seu papel, como sempre fez na história da humanidade, de nos ajudar e nos unir em momentos difíceis.

Decidi então me aprofundar no que a dança significa para mim, para a sociedade como um todo, revisando as origens do balé clássico e da dança moderna. Como sempre, procurei orientação na minha estante de livros e encontrei um livro bem antigo chamado Dançar a Vida, de Roger Garaudy.


‘Dançar é vivenciar e exprimir, com o máximo de intensidade, a relação do homem com a natureza, com a sociedade, com o futuro e com os deuses. Dançar é, antes de tudo, estabelecer uma relação ativa entre o homem e a natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele.’


Ao ler esse livro pela primeira vez, talvez tivesse achado um tanto complexo. Mas agora entendo que Garaudy diz que dançar é algo espiritual, uma maneira de nos sentirmos um com a natureza e com uma força superior, de celebrarmos nossa existência. Dançar é inato a quem somos como seres humanos, um meio de estabelecermos relacionamentos com o mundo ao nosso redor.


Quando pequena, não podia explicar por que gostava tanto do balé. "Danço para me expressar", dizia, apenas por ouvir outros dizerem o mesmo. Não conseguia dizer o porquê. Posso descrever agora como algo que faz meu espírito se elevar, onde me encontro no meu elemento. Lembro-me da dona Toshie, minha professora de balé, ​​dizendo com seriedade: 'Você não escolhe a dança, a dança escolhe você!' Achava aquilo loucura, ainda mais com quinze anos quando precisei escolher ir embora do meu pais para ser bailarina. Como assim a dança nos escolhe?


Mas talvez haja um pouco de verdade no que a sábia mestra dizia. Não acho que teria suportado as exigências físicas e mentais do balé se não sentisse uma forte atração espiritual pela dança, uma sensação de ser 'escolhida' para entregar uma mensagem, e mostrar quem realmente sou.


'Rhapsody' de Frederick Ashton. Foto de Dave Morgan.

Para alguns, a dança significa uma oportunidade de se destacar, de ser 'o melhor', são motivados pelo seu lado atlético, pela aptidão física e domínio de ‘truques’. Muitos se apegam ao balé porque são muito talentosos e se sobressaem, mas se não existe amor, acredito que fique cada vez mais difícil sustentar tal satisfação. Quando escolhemos o balé como profissão, ele se torna um estilo de vida que exige muito comprometimento, dedicação e disciplina. É uma carreira muito curta; infelizmente, nosso corpo tem limites. Aos quarenta e poucos anos, quando o corpo não responde às exigências físicas do balé clássico, a maioria dos bailarinos partem para outros tipos de dança.

Dançar como um hobby, por outro lado, pode ser praticado em qualquer idade e a qualquer momento de nossas vidas. Pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes e melhorar o bem-estar e a saúde de adultos e idosos, fazendo com que estes se sintam parte de uma comunidade. Os benefícios da dança são infinitos! Alem de ser uma forma de exercício, ela inspira a criatividade e desenvolve uma certa atitude em relação à vida, dando habilidades necessárias para ter sucesso em outras áreas, sejam elas pessoais ou profissionais.


‘O que é a dança? É a expressão física de relacionamentos, sentimentos e idéias através de movimento e ritmo. Não se ensina matemática apenas para criar matemáticos, a escrita não apenas para criar a próxima geração de romancistas. O mesmo vale para as artes. É ensinada para criar cidadãos bem preparados que possam aplicar as habilidades, o conhecimento e a experiência de estarem envolvidos nas artes em suas carreiras e vidas’


- Cecilia Kerche


Uma garotinha começa o balé com seus três anos de idade por vontade dos pais, ou por querer vestir um tutu rosa e coroa de brilhantes. Mas ao crescer, descobre que essa historia vai alem de se sentir princesa, ela se apaixona pela música e pelos movimentos. As aulas da semana então se transformam em ensaios de domingo e viagens a festivais de dança. O grupinho de amigas supera obstáculos e ultrapassa limitações juntas, crescem em um ambiente íntimo e seguro, compartilham o mesmo sonho e desafios da adolescência. Mesmo quando seguem outros caminhos, seja ele qual for, elas se vêem cercadas por lembranças felizes.



A dança me deu tantas amizades! Uma amiga de infância tornou-se médica, outra arquiteta, empresária, veterinária ... cada uma a seu modo se tornou feliz e bem-sucedida e continua a desempenhar um grande papel na minha vida. A dança nos ensinou como lutar por nossos sonhos, como viver com nossas diferenças, como apoiar umas as outras, nos deu motivos para sentirmos orgulho - momentos a serem recordados para sempre - e esperanças e alegrias de um futuro a compartilhar nossas realizações!


Minhas 'Amigas de Coppelia'.
A dança só reencontra seu grande êxito quando é a expressão, ou a esperança, de uma vida coletiva.’ - Garaudy

Dançar significa conectar-se com pessoas, compartilhar uma história com a plateia, sentir aquela troca de energia de bailarino para bailarino. Adoro olhar nos olhos dos bailarinos quando dividimos o palco. Aquele momento em que nossos olhares se encontram me dá uma sensação tão boa, como se estivéssemos guardando um pequeno segredo. Às vezes posso ler feições de amigos e saber que estão tentando controlar uma risada, o que me leva a um ataque de riso também, daqueles bem discretos. Se alguém começa com risadinhas no palco é algo contagioso, precisamente por ser errado! Mas são momentos de descontração e diversão, e todos necessitamos disso no trabalho.

Há uma troca muito forte de energia entre nós, bailarinos. Se estou no palco ou nas coxias assistindo alguém que realmente admiro, logo que começo a dançar me sinto radiante, com o mesmo nível de empolgação e energia. Seria este o verdadeiro significado de se sentir 'inspirado'? Verdadeiros artistas me fazem esquecer que a técnica existe.

With Hiro Takahashi in Swan Lake, Northern Ballet
Toda dança implica participação: mesmo quando ela é espetáculo, não é apenas com os olhos que a ‘acompanhamos’, mas com os movimentos pelo menos esboçados do nosso próprio corpo. A dança mobiliza, de algum modo, um certo sentido, pelo qual temos consciência da posição e da tensão dos nossos músculos [...] Este sexto sentido estabelece, graças a um fenômeno de ressonância muscular, o contato entre o dançarino e o participante.’ - Garaudy

A maneira como vejo pessoas reagirem a um espetáculo de bale, com tanto entusiasmo, me faz acreditar que realmente há uma conexão mais profunda entre o artista e o público, algo que vai além do visual, como se revivessem os sentimentos expressos pelo bailarino. Fico espantada com aqueles que dizem vir à Royal Opera House todas as noites, assistem ao mesmo balé seis, sete, oito vezes! Não sei se eu poderia ter o mesmo comprometimento, mas sinto uma enorme alegria e alívio sabendo que o público sente o que eu sinto quando estou dançando.



A vida é sobre dar e receber. Posso ver a emoção no rosto das pessoas enquanto esperam pelos bailarinos na saida dos artistas após as apresentações. Querem fotos, autógrafos, dão sorrisos e entregam flores e fazem você esquecer o cansaço. Penso muito na platéia quando estou dançando. Tento realmente me aproximar a eles, me comunicar com meus olhos e meu sorriso, mesmo quando não posso ver seus rostos naquela escuridão.

No inicio da pandemia, à luz de tudo o que acontecia no mundo, podia sentir o teatro ainda cheio. As pessoas estavam pondo sua saúde em risco para não perderem um espetáculo, e isso realmente me emocionou. Mesmo com tantos motivos para evitarem os teatros, elas enfatizavam que estariam na platéia assim que os teatros reabrissem. Acho isso incrível, e sou muito grata por essa apreciação e amor por nossa arte.


Steve Hutchings foi um grande fã da dance e me mostrou como esta pode nos tocar a alma..
Pos-show no Japao, turnê 2019. Fãs a espera da chegada dos bailarinos

Houveram momentos em que me perguntei se estaria fazendo o suficiente pela humanidade. Seria eu muito egocêntrica em escolher essa carreira? Que impacto estaria causando na sociedade? Será que apenas fazia parte de uma arte elitista? Mas há pouco percebi que apenas comecei a entender o quanto a dança pode tocar a vida das pessoas e melhorar o nosso bem-estar mental e emocional, ao deparar-me com o site de uma escritora inglesa, Kate Eberlen.


Kate havia lançado recentemente um romance inspirado em sua paixão pela dança. Only You é atualmente o best-seller de Ballet no AmazonUK . Mas a postagem de seu blog que encontrei não era sobre o livro em si, e sim sobre 'Como a dança salvou minha vida', onde ela explica como a dança a ajudou num período extremamente difícil e delicado de sua vida. Ao participar de ‘tea dances' (‘danças do chá’ - acredito ser algo que os ingleses criaram, uma combinaçao de dança seguida pelo chazinho da tarde) e fazendo muitas visitas ao teatro, ela encontrou força e coragem para enfrentar todos os obstaculos.

"Para mim, assistir balé é como receber uma dose de pura felicidade."

Read Kate’s blog here. https://www.kateeberlen.com/article.php?id=30


O fato é que nunca sabemos as repercussões de nossas ações, o quanto estamos afetando aqueles que conhecemos ou que simplesmente nos observam de longe, talvez sentados na platéia, apreciando nossa dança como se fosse seu próprio corpo e espírito voando. Histórias como a de Kate me fazem sentir muito orgulho do que faço e me ajudam a acreditar no poder transformador da dança, de como ela não é apenas uma fuga da realidade mas algo que dá prazer, uma maneira de outros viverem uma vida mais feliz e gratificante.


A dança não é, para mim, apenas uma forma de viver. É como compartilho e recebo felicidade. É minha tentativa de tornar o mundo um lugar melhor.

E o que a dança significa para você?



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