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A magia do Quebra-Nozes

A famosa historia de O Quebra-Nozes e o Rei Rato foi escrita por E.T.A. Hoffmann em 1816, inspiração para um dos mais queridos balés de nosso repertório. O Quebra Nozes captura o espírito do Natal melhor do que qualquer outro. Acompanhamos a história de Clara e sua amizade com um boneco quebra-nozes que ganha vida na véspera de Natal. Juntos, lutam contra o Rei Rato e viajam por terras de neve até o Reino dos Doces, onde conhecem a Fada Açucarada e seu Principe.



Na produção de Sir Peter Wright, apresentada pelo Royal Ballet há mais de trinta e cinco anos, Clara e seu irmão se encontram no meio de uma grande festa de Natal, maravilhados com a decoração, os convidados, presentes, muita dança e, é claro, a presença de Drosselmeier. Embora seja um ato festivo e alegre, há momentos que me dão um certo arrepio. A música de Tchaikovsky enche a cena de suspense. Que mistério acerca esse padrinho e seus truques mágicos?


Ensaio Geral 2020, foto Andrej Uspenski

Quando o relógio bate meia-noite e Clara se encontra sozinha, estranhas figuras aparecem para assombrá-la. A casa é transformada no palco de uma batalha feroz entre soldados e ratos. Tudo é muito assustador para a jovenzinha, mas isso não é nem metade da história. No conto original, o pobre Quebra-Nozes tem que derrotar um Rei Rato de sete cabeças!

Tendo lido a historia de Hoffmann, entendi porque existe esse lado sinistro do balé. Desde que estudei literatura, descobri que a maioria dos contos originais são meio assustadores. Para a alegria do público e principalmente das crianças, o segundo ato do balé é repleto de encantamento e diversão, com números de dança incríveis e um belíssimo pas de deux. Tudo acaba bem! Foi apenas sonho? Até Hoffmann nos deixa com essa dúvida...



O Quebra Nozes tem um lugar especial no coração dos fãs da dança, assim como no meu. Todo mês de dezembro, minha mãe costumava nos levar ao Teatro Sergio Cardoso para assistirmos O Quebra Nozes com a Cisne Negro Cia de Dança. Dirigida por Dany Bittencourt, a companhia mantém essa tradição há quarenta anos.


Nos últimos dois anos tive o privilegio de me apresentar em seu espetáculo como Rainha das Neves e Fada Açucarada junto a Luca Acri, meu bailarino convidado. Testemunhamos de perto seu amor e compromisso com a arte, e que honra poder trazer um pouco da magia de Sir Peter Wright para o publico brasileiro.


Foto de Reginaldo Azevedo

Além de me encantar com o balé e sua música, o que mais me chamava a atenção nessa produção eram as crianças patinando e brincando na neve, e ver adultos chegando a festa adultos com longos vestidos e casacos de inverno. O único Natal que conhecia era uma noite quente e abafada de verão, com brincadeiras na piscina e um grande churrasco ao ar livre!

Desde que vivo em Londres, aprendi que há algo especial em celebrarem o Natal no inverno, beber chocolate quente perto da lareira acesa e passar uma tarde aconchegante com a família, acolhidos dentro de casa. Adoro ver as árvores e prédios se iluminarem pela cidade ... isso faz com que os dias frios e as tardes escuras sejam um pouco mais agradáveis (aqui o sol se põe as 15h no inverno). Todos esperam por um ‘white Christmas’, um Natal nevado.


Natal em Covent Garden com a familia.

Quando pequena, assisti inúmeras vezes a uma fita do Quebra Nozes com o The New York City Ballet de 1993, estrelado por Macaulay Culkin como o Quebra-nozes e Jessica Lynn como a doce Marie. Talvez essa seja a origem de meus mais profundos desejos de ser a Clara, mas antes de ter essa chance, em meu primeiro Quebra Nozes fui um presentinho que sapateava e um marzipan. O espetáculo de minha mãe se chamava Um Sonho de Natal.



Ao completar treze primaveras, em um ano marcado por grandes conquistas e sinais de um futuro promissor na dança, pude finalmente ser a Clara. Mal sabia eu que logo partiria para o Canadá para aprimorar ainda mais meu treinamento de balé.


Ao longo de minha carreira profissional, Clara continuaria me enchendo de felicidade e marcando grandes realizações. Foi o primeiro papel principal que dancei no Northern Ballet e, alguns anos depois, no Royal Ballet. Com o Northern Ballet, também fiz o papel da irmã Louise, que se torna a Fada Açucarada no segundo ato. Foi uma fase de muito aprendizado e crescimento que guardarei para sempre em meu coração. Meu partner era Hiro Takahashi, um bailarino experiente que me ensinou muito sobre partnering.


Uma Fada Açucarada feliz e seu cavalheiro.

Quando inexperientes, nós bailarinas fazemos o dobro do esforço necessário. Ficamos tensas e rígidas para “ajudar” os bailarinos, o que dificulta poderem encontra o nosso eixo, e antecipamos demais os movimentos. Se tentarmos saltar em preparação a uma levantada e não estivermos coordenadas com o partner, podemos parecer dez vezes mais pesadas! Cada levantada exige extrema coordenação e sincronia.

Alem de nos darem suporte, os bailarinos ​​nos dão conforto para que possamos executar os movimentos livremente e nos levantam com a maior graciosidade, fazendo parecer que não há esforço algum. Mas para melhor desempenho, o trabalho há de ser mutuo e na medida certa.


Cada bailarino ou bailarina tem o seu próprio estilo e suas preferencias, e quanto mais você trabalha com alguém, mais você se acostuma com um certo estilo, encontrando maneiras de se comunicar por meio dos movimentos. Dizem que quando uma bailarina parece livre e confortável no palco, significa que esta em excelentes mãos!


Dançando O Quebra Nozes com Alexandre Queruba. Brilhante partner, professor, e amigo.

A parceria de bailarinos não constitui somente em executar os movimentos com perfeição, tem de haver um vínculo entre os dois, algo que transmita confiança e tranquilidade para quem está assistindo. Isso geralmente acontece quando o casal tem uma certa 'química' no palco, podem se comunicar por um simples olhar, falam a mesma língua quando dançam, e parecem se alimentar dessa troca de energia. Bons parceiros revelam o que há de melhor um no outro.


Eu e o bailarino australiano Benjamin Ella fomos parceiros no Quebra-nozes desde minha estreia como Clara no Royal em 2017. Também dançamos juntos em outros balés, como em Flight Pattern de Crystal Pite, e recentemente como Espada e Mercedes em Don Quixote. Sempre senti uma conexão especial com ele. Além de ser um bailarino extraordinário, também é atencioso e solidário.



Nos últimos tres anos, fiz par com o Luca Acri, outro partner incrível! Sempre me perguntei por que nós nunca havíamos dançado juntos antes, já que as parcerias também têm muito a ver com altura. As coisas correram muito bem desde o nosso primeiro ensaio e logo ganhamos total confiança um no outro.


Tenho muita sorte de ter parceiros que estão dispostos a trabalhar e atingir o melhor nível possível, e que gostam de contar a historia. O processo é sempre uma jornada, uma experiência de aprendizagem. No fim, compartilhamos um momento indescritível no palco que fica para sempre em nossas memórias.


Com Luca Acri @dancersdiary

Cada vez que desempenho o papel de Clara, descubro algo diferente. Lembro-me de como foi incrível dançá-lo com o Northern Ballet, e da emoção indescritível que senti ao fazê-lo no palco da Royal Opera House. Meu coração está cheio de doces lembranças dela, mas olhando as fotos de quando era apenas uma menina, dançando na escola da minha mãe, meu coração se enche de uma nostalgia que não consigo explicar. Não me cabia de felicidade no palco e parecia que nada poderia dar errado. Eu simplesmente fazia parte da magia.


Para mim, dançar sempre foi uma relação de amor, de não deixar que as coisas atrapalhem o quão bem você se sente e a felicidade que a dança traz aos outros. Percebi que ainda me apego à emoção de experimentar as coisas pela primeira vez e procuro esse sentimento genuíno de felicidade quando danço. Sempre me preocupo em querer fazer o meu melhor, em estudar cada papel e aprimorar cada detalhe, mas ao invés de tentar ser ou agir como meus ídolos, minha inspiração para Clara esteve comigo o tempo todo. É a minha essência, a criança dentro de mim.


Ballet Marcia Lago, 2001.

The Nutcracker (1993), NYC Ballet.


 

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