A temporada 21/22 do Royal Ballet - parte I

Com o final da nossa temporada se aproximando, olho para trás e percebo o quão ocupados estivemos aqui na Royal Opera House e o quanto realizamos em meio a uma pandemia, uma guerra e tudo mais. Parece que voltamos um pouco à normalidade, se é que podemos chamar essa vida de 'normal'. Depois de termos parado por quase um ano e meio, a carga de trabalho de uma temporada completa seria um grande choque para mim.


Sempre procuro manter um senso de equilíbrio no trabalho e na vida, mas sempre acabo inclinando para um lado ou para o outro, e este último ano pesou muito no lado do trabalho e dos estudos. Mas também percebo que minha percepção das coisas mudou. Um teatro aberto e uma platéia cheia... não damos mais essas coisas como certas. Eu sei que não podemos confiar no tempo ou em circunstâncias ideais, então contanto que eu continue me cuidando e fazendo uma higiene mental, as coisas fluem tão naturalmente quanto podem, e me sinto leve e otimista.


Foto de Andrej Uspenski

Agosto começou como de costume, com poucas aulas e ensaios para nos trazer de volta à forma depois de um longo verão. Com um pouco de tempo extra em minhas mãos, mergulhei em um novo projeto empolgante. Ao pesquisar para o meu curso de Escrita Criativa, me deparei com uma revista literária chamada The Pomegranate que fala sobre várias formas de arte, da escrita de contos à poesia e desenhos que imediatamente mexeram comigo. Pensei em enviar um de meus textos, mas antes que entrasse em ação, a própria editora me contatou sobre um projeto colaborativo que combinaria algumas das minhas coisas favoritas: literatura, música e dança.


Designada para retratar o gênio criativo de uma figura proeminente da literatura inglesa, comecei por escolher uma música. Esta seria minha primeira criação, e eu não tinha experiência em coreografia, muito menos em filmagem. Contei com a visão e talento de um amigo de trabalho, o Matthew Ball, que veio ao meu socorro. O produto final acabou por ser bastante especial, superando minhas expectativas.



'Reverie foi inspirada por Virginia Woolf, sua vida artística e suas lutas. Eu estava passando por um momento difícil, aceitando a perda de um amigo querido (também artista), e acredito que isso me influenciou na escolha de representar como o trabalho desempenha um papel fundamental na vida de um artista, como todo artista enfrenta dúvidas e medos, mas sempre ganha um insight ao superá-los e uma maior compreensão de si mesmo.'


The Pomegranate Project - Issue 2


Coreografias são muitas vezes inspiradas em obras de literatura. No início da temporada, estreamos um balé de três partes baseado em 'A Divina Comédia' do poeta Dante Alighieri. O Projeto Dante, de Wayne McGregor, capturou a jornada de Dante pelos vários círculos da vida após a morte. Não estive envolvida em sua criação, principalmente da parte I - 'Inferno' - que havia sido feita anos atrás, onde dancei em um quarteto de mulheres muito briguentas. Havia muito o que aprender, e no início senti dificuldades em desencadear meu lado ‘agressivo’, mas no final, todos nos divertimos.


O que achei mais estressante, porém, foi a sessão de spray do nosso figurino. Cabines minúsculas foram montadas nos bastidores, onde três bailarinos entravam de cada vez para serem pulverizados com giz. Usamos óculos e equipamento de proteção para nos proteger dos produtos químicos, mas o cheiro ainda era inebriante. Este spray tinha que ser reaplicado duas ou três vezes por apresentação para criar o efeito desejado no palco. Com música composta por Thomas Adès e desenhos da artista Tacita Dean, Dante foi um grande sucesso.



The Dante Project © ROH

Em plena preparação para Dante, abrimos a temporada com Romeu e Julieta . Esta versão, de Sir Kenneth Macmillan, é um clássico do repertório do Royal Ballet e sempre volta ao cartaz. Por ser tão familiar aos bailarinos, não demora muito a ser remontado. Alguns ensaios e estamos prontos! Mas isso não significa que não devemos ficar alertas durante as lutas com espadas. Além disso, toda interação e energia no palco são necessários para representarmos um vilarejo animado, por isso exige 100% de empenho.

Sempre fui escolhida a ser uma das amigas de Julieta, mas desta vez faria minha estréia como uma das 'prostitutas'. Durante a segunda temporada de Romeo & Julieta em janeiro, a companhia teve um surto de covid. Tive que me manter profissional e tentar o meu melhor para não entrar em pânico, mas essa produção não é particularmente ‘covid-friendly’. Um por um, bailarinos, maquiadores, figurinistas começaram a adoecer e tiveram que se isolar. De todos os elencos, restava apenas um Mercutio no final para salvar o show! Meu medo de pegar covid logo antes das nossas férias, quando estaria viajando para o Brasil, foi grande!


Foto de Andrej Uspenski

Além do que acontece no palco principal, os bailarinos estão frequentemente ocupados trabalhando em vários eventos paralelos de menor escala, mas igualmente importantes e exigentes. A Royal Opera House é composta por muitos locais de apresentação, como o Clore Studio, onde filmamos o 'World Ballet Day', e o Linbury Theatre, que recebe artistas convidados e onde os bailarinos do Royal Ballet geralmente exibem suas próprias coreografias em Draft Works. Tanto no 'World Ballet Day' quanto em 'Draft Works 2021' dancei Short Stories with Sibelius, coreografado por Ben Ella no verão passado.


Foi no Linbury Theatre que comemoramos o aniversário de dez anos da Fundação Ashton, com “Insights into Frederick Ashton: the influence of a ballet legend”. Foi transmitido no canal do YouTube da Royal Opera House, o que é sempre uma pressãozinha extra. Dancei a variação de 'Fada da Alegria' de A Bela Adormecida (1968), orientada por Dame Monica Mason. Sempre valorizo nossos momentos no estúdio, quando me sinto admirada com seu conhecimento e respeito por essa forma de arte. Mas uma coisa me deixou intrigada desta vez. Enquanto trabalhávamos no solo, Monica me aconselhou a não sorrir tanto com os dentes, o que acho quase impossível!

'Sorria com os olhos!' ela dizia.


Mas sou a fada da ALEGRIA, como não sorrir?? - pensava com meus botões.

O último evento que pude assistir no Linbury Theatre foi uma colaboração maravilhosa entre Matt Ball (meu cameraman), o fotógrafo Rhys Frampton e o compositor Guy Chambers. Drowning Light é uma releitura do Mito de Ícaro, e o primeiro curta-metragem de Matt. Fiquei admirada com sua criatividade e com o resultado da combinação de três artistas que dividiram seu conhecimento e ampliaram as fronteiras de seus campos. Que maneira maravilhosa de desenvolver e transpor as próprias habilidades artísticas.


Matthew Ball - by Rhys Frampton

Em novembro, Giselle, de Sir Peter Wright, voltou ao nosso palco! É um dos meus clássicos favoritos e a primeira produção que fiz com o Royal Ballet. A emoção indescritível - parece que foi ontem - que senti quando entrei no palco do Opera House é algo que nunca vou esquecer. Toda vez que ouço a música do prólogo, sinto uma nostalgia e gratidão imensas.


'Giselle' seria o papel ideal, um sonho tornado realidade! Ela se transforma em tantas coisas... é terrena e etérea, vulnerável e forte, e morre de amor sendo capaz de perdoar. Estreei como ‘lead pas de six’ e ‘Zulme’, ambos gostei muito, mas ainda espero pelo dia em que Albrecht baterá à minha porta...



A época do Natal pedia nossa amada produção de O Quebra-Nozes. Depois de uma temporada interrompida no ano passado, nosso teatro conseguiu manter suas portas abertas por mais um tempo para famílias e turistas de todo o mundo. Os ingressos foram praticamente esgotados assim que lançados online. Nosso público anseia por ver nossa árvore de Natal subindo aos céus e a Clara sendo levada de trenó para o Reino dos Doces, só que… haveriam mais interrupções este ano, não causadas somente pela covid-19.



Infelizmente, a magia da 'cena da transformação' não aconteceu em sua totalidade por duas ou três apresentações consecutivas devido a uma falha técnica, onde a 'rampa' que move o cenário para cima e para baixo ficou totalmente presa. Os técnicos estavam trabalhando duro para resolver o problema, mas simplesmente não foi possível corrigi-lo a tempo. Seguimos em frente com o espetáculo, improvisando nossos passos com pouquíssimo tempo de preparo. Também tivemos algumas apresentações canceladas, e parecia que essa coisa de covid nunca iria acabar! Por outro lado, porém, finalmente consegui ser a 'Clara' na performance que passou ao vivo aos cinemas em todo o mundo. Tornou meu Natal muito especial, e espero que tenha trazido alegria e um pouco de magia para outras famílias também! Aqui, a cena de transformação com Christopher Saunders como ' Drosselmeyer '.

O corona vírus pode ter estragado nossa temporada de O Quebra-Nozes, mas não me impediria de voltar para o Brasil! Uma pausa geralmente acontece em janeiro, é uma semana muito esperada pelos bailarinos pois precisam desesperadamente de um pouco de descanso para recarregar as baterias. Desta vez, sabíamos que iriamos precisar muito! Não apenas para nos recuperarmos de meses seguidos de espetáculos, já que esta foi nossa primeira tentativa de voltar a nossa programação habitual, mas também para nos preparar para o que estava por vir pela frente…



Na minha opinião, O Lago dos Cisnes é um dos balés mais desafiadores já criados! É difícil para os bailarinos principais, é claro, por apresentar proezas técnicas e dramáticas, mas é especialmente difícil para o corpo de baile feminino, que faz todas as apresentações. Já fiz várias produções de O Lago dos Cisnes, começando com o Ato II enquanto ainda estava na Escola Nacional de Ballet do Canadá. Quando vim para a Inglaterra, fiz a versão de David Nixon com o Northern Ballet, Derek Deane's Swan Lake in-the-round no Royal Albert Hall com English National Ballet, e agora duas produções diferentes com o Royal Ballet. Nenhuma me pareceu mais fácil do que a outra, e admito ter dito no passado que ODIAVA o Lago.


NB's Swan Lake

ENB's in-the-round (photo Amber Hunt)

Ninguém lhe diz o quanto é difícil ficar na linha do corpo de baile pelo que parece uma eternidade, ou o quanto seus músculos vão se contrair e ter câimbra, seus olhos lacrimejarem com o suor que escorre pelo seu rosto. Ninguém avisa que as trocas de figurino serão à jato, e que você vai chegar em casa exausta e se sentirá privada de sono por semanas…


The Royal Ballet in 2014

Mas há um motivo pelo qual o Lago é um dos balés mais populares de todos os tempos, pelo qual colocamos nossos corpos e mentes ao teste dia após dia. Apesar de toda a exaustão, posso dizer honestamente que encontrei uma nova apreciação por ele (embora reconheça que isso possa ter a ver com o fato de não ser mais do corpo de baile). Finalmente posso curtir a bela música de Tchaikovsky e os cenários e figurinos hipnotizantes de John MacFarlaine. Sinto-me parte da história, e devo tudo isso ao falecido coreografo e caro amigo Liam, que me deu oportunidades que nunca pensei ter e uma incrível sensação de liberdade, cuja sensibilidade e paixão levarei comigo para sempre.


Liam Scarlett (1986-2021)

Tanta coisa mudou desde março de 2019, quando o primeiro lockdown interrompeu nossas apresentações de O Lago dos Cisnes. Foi como se estivéssemos continuando de onde paramos, o que provaria ser um desafio maior do que jamais poderíamos imaginar.


Swan Lake 2018 © ROH

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