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Em tempos incertos

  • Foto do escritor: Isabella Gasparini
    Isabella Gasparini
  • há 4 horas
  • 9 min de leitura

Quem de nós não tem medo do desconhecido? Qualquer mudança de rotina já nos traz insegurança; preferimos seguir nossos hábitos na crença de que o amanhã se revelará como o dia de hoje, mesmo quando sentimos certa instabilidade ou incerteza. Mas num piscar de olhos, uma simples conversa se desenrola de tal maneira a nos levar na direção oposta a prevista, mudando o curso de nossas vidas. No momento pode parecer algo terrível, mas mais adiante, tudo começa a fazer sentido.


Quando deixei meu emprego no Northern Ballet, não tive nenhuma garantia de como minha carreira seguiria dali para frente. Deixava a segurança de um trabalho estável para lutar por algo mais, queria honrar meus sonhos e me dar a chance de encontrar um lugar onde me sentisse respeita e valorizada. Simplesmente não poderia viver comigo mesma se não tentasse, e cheguei a conclusão de que necessitava de uma mudança, que a única maneira de consegui-la era fazer algo a respeito. Perguntavam-me se tinha medo de que as coisas não dessem certo... e como superar esse medo?



'Nada mudará se nada mudar. Se você continuar fazendo o que está fazendo, continuará recebendo o que está recebendo.' - C. Stevens


Quando finalmente criei coragem de pedir demissão, meu namorado decidiu terminar nosso relacionamento de quatro anos, e ainda por telefone! Só me faltava essa agora! De repente me vi sem emprego, sem meu melhor amigo e ninguém além dos meus pais em quem pudesse realmente me apoiar. Na época, esse namorado morava na Alemãnha. Foi um grande incentivador na minha decisão de sair de Leeds, mas agora percebia que a luta era minha, somente minha. Estava certa de que faria isso por mim e mais ninguém.


Foram tempos bem difíceis pois ninguém havia terminado um namoro comigo antes, e eu havia me dedicado tanto à ele, viajando pra lá e pra cá para passarmos qualquer tempinho juntos. Manter um relacionamento à distância é bem complicado, mas nunca achei que fosse algo impossível. Teria continuado se houvesse um comprometimento dos dois lados. Mas quando perdemos a confiança, tudo vai mesmo por água abaixo.


Com o coração partido em mil pedaços, canalizei toda a minha raiva e frustração para criar uma nova imagem. Cortei o cabelo bem curtinho, porque isso já era um recomeço.



Mais tarde, entendi que embora muito doloroso, o fim de um relacionamento tóxico pode ter me ajudado a me sentir liberta, mais focada em minha carreira e bem-estar. Ao me livrar da sensação de "estar presa", tanto na vida pessoal quanto profissional, abria espaço para coisas novas. Às vezes apenas precisamos nos desapegar, pesar os aspectos positivos e negativos de uma situação ou relacionamento e perceber que, embora possamos tentar ganhar a aprovação de alguém, podemos também escolher direcionar nosso tempo e energia para algo novo, diferente e promissor.


Vejo isso como um dos fatores mais importantes para alcançarmos nossos objetivos: correr riscos! Agindo sempre com muita fé, abrindo espaço para o desconhecido. O fator 'risco' está presente em todas as histórias de sucesso de pessoas que conheço, amigos que tomaram controle da própria vida, fizeram uma mudança corajosa e encontraram o que estavam procurando. Assim que abandonaram o que os prendia, algo surpreendente e inesperado surgiu... como um milagre!


‘O truque da vida é ter a coragem de seguir o caminho que está iluminado em seu coração' - Atticus

Meu plano desde o início era deixar o Northern Ballet para entrar no Royal Ballet, mas o destino tinha outras ideias. Após uma segunda tentativa fracassada no Royal, decidi seguir a carreira de freelance. Fui contratada pelo English National Ballet para uma produção de O Lago dos Cisnes no Royal Albert Hall, em South Kensington. Era um contrato de apenas três meses, mas o aceitei na esperança de receber uma posição permanente na companhia. A experiência foi maravilhosa, mas chegando ao fim da temporada, onde é que estava aquela grande oferta de emprego??



Ao perceber que não podia dar nada por certo, fiquei com as antenas ligadas. Na própria sede do English National Ballet, em Jay Mews, uma audição se realizava para a companhia New English Ballet Theatre ou"NEBT". Nunca tinha ouvido falar nessa companhia, mas descobri que ofereciam uma plataforma para jovens artistas profissionais, como eu, se apresentarem em Londres. O melhor de tudo, e o que mais me chamou atenção, era que ao final da temporada haveria uma gala de encerramento no Linbury Theatre - um espaço secundário do Royal Opera House - na casa do Royal Ballet!!! Tomei isso como um sinal de que estaria me aproximando de onde realmente queria estar!



Em tempos incertos como este, procurava 'sinais' por toda parte. Se uma joaninha pousava em mim, estava me trazendo boa sorte! Se me ofereciam um café gratuito na Starbucks, acreditava ser um bom presságio para o resto do meu dia. Tinha a sensação de que o 'NEBT' era o lugar certo para mim naquele momento, mesmo sendo uma companhia pequena com muitas coisas com as quais teria que me acostumar, como por exemplo: esticar o linóleo e montar barras portáteis todas as manhãs, me trocar em banheiros apertados, dançar em uma sala sem espelhos e sem piso apropriado e ter que abandonar minha rotina de aquecimento.


Fui improvisando um caminho e seguindo minha intuição, aprendendo o tempo todo a apreciar o que as grandes companhias de balé tinham que muitos bailarinos não davam valor. Foi um período que testou minha fé em Deus (ou em um Poder Superior), que me fez acreditar fortemente em uma "justiça divina" e confiar no meu trabalho. Rezava muito e pedia por orientações (os sinais) e muita paciência. Estava comprometida a 'viver e aprender', o tempo todo esperando por algo maior e melhor! Não sabia bem quando ou como isso aconteceria, mas sabia que tinha feito tudo ao meu alcance para merecê-lo.



O que você pensa, você se torna. O que você sente, você atrai. O que você imagina, você cria.’ - Buddha

Após a gala de encerramento no Royal Opera House, em meados de outubro, parti direto ao Brasil. Pretendia passar um tempo com minha família pois sentia que precisava de conforto, amor e carinho. O término da temporada no 'NEBT' foi como o fim de um longo e árduo capítulo e ainda não sabia como procedir, o que mais poderia fazer.


Li o máximo que pude, livros espirituais ou de auto-ajuda que me ajudariam a me manter positiva. Um dos mais influenciadores foi 'If you want to walk on water you’ve got to get out of the boat.' de John Ortburg. Eu o encontrei numa livraria de segunda mão, ainda em turnê com o Northern Ballet, e este livro me passou a certeza de que fazia a coisa certa. Outros a seguir foram: 'The Power of Now' de Eckhart Tolle, 'The Power of Positive Thinking' de Norman Vincent Peale, 'Feel the Fear and Do it Anyway' de Susan Jeffers e 'The Road Less Travelled' de M. Scott Peck. Eu os lia de coração aberto e ia escrevendo trechos no meu diário.


Uma passagem que anotei em 2013 parece resumir aquilo que mais me impactou na época, tirado de um livrinho de bolso chamado 'The Pilgrim's Way and Manner' que comprei na Catedral de Canterbury, Inglaterra. Começava assim:



O Caminho e a Maneira do Peregrino

 

Procure amizade.

Seja gentil e ajude os menos afortunados.

Seja grato por aqueles que o ajudarem.

Seja respeitoso.

Esteja aberta ao acaso - o inesperado.

Repense relacionamentos pessoais, objetivos e valores.

Procure novas perspetivas.

 

Use sua imaginação. 

Seja observador, ouça e preste atenção.

Conheça a história do seu destino.

Use oração e meditação.

Seja honesto com você mesmo.

Tenha fé.


Passei a tratar os meus dias e escolhas como sagrados, pequenos passos que me direcionavam à autodescoberta. Em momentos de dúvida e insegurança, tentava mudar meu foco e seguir esses princípios. É normal termos autos e baixos, sentir medo e perder um pouco as esperanças, desde que estejamos conscientes de que nossa mente gosta de nos enganar, principalmente quando imaginamos um futuro onde o pior acontece.


Não foi nada fácil, mas nunca pensei que estivesse desistindo ou que aquele fosse o fim. Queria servir de exemplo e provar a mim mesma que minha filosofia sobre 'como realizar os sonhos' podia dar certo, mas para isso tinha que vivê-la. Desde então acredito que viver no momento presente é sempre a melhor coisa a fazer, mesmo quando algo que queremos muito possa parecer impossível de se realizar. Nada como um dia após o outro.


'Imagino um resultado positivo, visualizo o que quero alcançar. Estou no Brasil há dez dias e já posso sentir os benefícios de voltar às minhas raízes, mesmo que isso signifique depender de meus pais, estar desempregada, enfrentar o trânsito todos os dias e ouvir sobre violência e corrupção. Passei algumas horas com meus avós no hospital hoje e isso me ensinou muito sobre amor, coragem, rendição ao que é. Estou feliz por estar aqui com eles ' (29 de outubro de 2013)


Mag, Magcita, Bichandinho.
Mag, Magcita, Bichandinho.

No pouco tempo que estive em casa, pensei cada vez mais sobre meu propósito na vida. Aprendi com meus avós, amigos, livros que li e filmes que assisti, encontrei conforto ao ler autobiografias e esperava que um dia pudesse contar a minha historia, fazer com que alguém não se sinta sozinho e supere o medo. O que devemos buscar na vida é sentir-se completo e em paz.


O RETORNO À INGLATERRA

"Dentro de Sidarta, lentamente cresceu e amadureceu o conhecimento do que realmente era a sabedoria e o objetivo de sua longa busca. Não passava de uma preparação da alma, de uma capacidade, de uma arte secreta de pensar, sentir e respirar pensamentos de unidade em todos os momentos da vida."


Siddhartha de Herman Hesse (meu autor favorito)


Não havia se passado nem um mês quando recebi um convite do English National Ballet para participar da temporada de O Quebra-Nozes, no London Coliseum, em Covent Garden. Novamente, via isso como um sinal: minha carreira na Europa não havia terminado! Uma das bailarinas da companhia lembrou de mim quando percebeu que precisariam de extras, pois muitas de suas colegas de trabalho haviam se machucado. Assim que recebi sua mensagem, enviei-lhes um email e fui chamada de volta. Antes de voltar para Londres, escrevi em meu diário como estava agradecida por tudo, principalmente por ter tido a oportunidade de passar um tempo precioso com minha família.


'Espero que esse tempo me ajude a confiar mais e mais no poder do Universo, em entregar-se nas mãos de Deus. Voltei para o Brasil sem a mínima ideia do que fazer mas com a mente aberta, e mesmo insegura e frustrada, foquei em me sentir bem e aproveitar ao máximo esse momento raro de estar em casa. Durou menos do que imaginava. O dia de partir novamente se aproxima e me sinto triste, um pouco só. Não gostaria de sacrificar minha família para estar sozinha naquela terra fria e cinzenta, mas meu desejo por algo mais me chama. Tudo o que quero, como sempre, é aproveitar o máximo estar lá também e dançar de coração e alma [...] Agradeço a Deus pelos dias maravilhosos que tive aqui, pelas flores, pássaros, sol e montanhas, pela tia Cida e seu carinho, suas comidinhas, sua companhia. Pelos dias que passei em casa na piscina, pelas manhãs de caminhada no Porto Atibaia. Pelos ensinamentos e dedicação da minha mãe, pelos ensaios inspiradores com bailarino/professor/partner Alexandre. Pelos cafés, bolos e passeios na Oscar Freire (ainda terei um apartamento la). Por encontrar com amigos distantes e queridos e pelas nossas brincadeiras e gargalhadas. Por passar tempo com vô Décio e vó Hilda, vó Nilva e tia Vera, pelas minhas leituras e por todo o conhecimento e perspectiva que adquiri nessas últimas semanas. Foi uma bênção estar em casa. Amo minha família mais do que tudo.’  - 29 de outubro de 2013



‘Talvez você já tenha exatamente o que precisa, talvez a jornada seja para aprender a finalmente acreditar..’

- Brianna Wiest


Alguns dias depois, estava eu no metrô indo à uma recepção em Jay Mews quando recebo um email inesperado. A equipe artística do Royal Ballet entrava em contato para saber se eu estaria disponível para as temporadas de Giselle e A Bela Adormecida. Eles também precisavam de uma bailarina extra. Claro que sim! Mil vezes sim!!! Os ensaios já haviam começado mas eu não podia quebrar o meu contrato com o 'ENB', afinal, ainda acreditava que podia ser minha última esperança. Terminada a matinê de O Quebra-Nozes, eu corria do Coliseum ao Royal Opera House para um ensaio e depois voltava ao teatro para a apresentação da noite. Como num toque de mágica, passei de desempregada a ter dois dos melhores empregos que uma bailarina poderia desejar!


Na manhā em que o novo diretor do Royal Ballet - Kevin O'Hare - viria me assistir em aula, eu e uma amiga brasileira / colega de quarto resolvemos tentar a velha simpatia da vela com mel que deveria adoçar as pessoas e fazer com que simpatizassem com você. Nem acredito em tais superstições, mas teria feito qualquer coisa para conquistar um lugarzinho no Royal Ballet. Acabou que nem era uma audiçāo, tudo já estava definido graças a algum "anjo da guarda" que intercedeu por mim.


Swan Lake em maio de 2018, quatro anos depois
Swan Lake em maio de 2018, quatro anos depois

As vezes me perguntam como me senti quando finalmente me tornei parte do corpo de baile do Royal Ballet, e eu fico sem palavras. Foi algo inexplicável. Não foi nada fácil abrir mão da segurança e conforto de um emprego estável. Toda mudança envolve enfrentarmos o desconhecido, mas quando menos esperamos, o desconhecido arranja uma maneira de nos encontrar, pois a vida sempre nos prepara para aquilo que atraímos ou desejamos receber.


A vida é realmente uma caixinha cheia de surpresas. Se as coisas parecem difíceis, não é sinal de que estamos falhando. É prova de que a tarefa exige muito de nós, e que talvez precisemos aprender uma coisa ou outra para continuarmos no caminho. Por que não confiar que algo bom nos espera? E se o futuro for ainda melhor do que jamais poderíamos imaginar?



 
 
 

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