Primeiros passos na profissão
- Isabella Gasparini

- há 5 dias
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Um dos momentos mais emocionantes de minha carreira foi quando assinei meu primeiro contrato de trabalho, especialmente porque o que mais temia era não conseguir emprego algum! O ano de graduação se aproximava e comecei a perceber que a concorrência lá fora era grande, tive medo de que talvez não fosse boa o suficiente. Ao receber aquele tão esperado e-mail com uma oferta de trabalho, meu sentimento de felicidade e alívio foi inexplicável. Consegui! Fui aceita no mundo profissional! É algo verdadeiramente mágico ver o que você mais ama, ao que se dedica desde tão pequena, se tornar sua profissão de verdade. Um feito que, infelizmente, poucos chegam a atingir.
No meu primeiro dia com o Northern Ballet, que na época chamava-se Northern Ballet Theatre, eu e mais nove membros recém-contratados fomos levados a um tour por West Park, então sede da companhia. Tentava me familiarizar com o espaço e memorizar os corredores e salas, e após uma breve introdução sobre a companhia, juntamo-nos aos demais bailarinos. Não conhecia ninguém e não encontrei nenhuma turma de brasileiros que pudesse me dar aquelas boas-vindas calorosas, mas os rostos amigáveis e sorrisos de meus novos colegas me passaram uma energia acolhedora.

Ao entrar na sala de aula como bailarina profissional, senti uma enorme sensação de liberdade e conquista, mas sabia que com isso surgiriam novas responsabilidades. Sair de casa aos quinze anos me ensinou a ser independente, a me adaptar a uma nova cultura e superar a terríveis períodos de saudades. A mudança de Toronto a Leeds fora bastante suave em comparação, pois completava dezenove anos e não era mais tão insegura. Leeds me parecia uma cidade interessante, era bem agitada e sede de uma universidade grande, com espaços verdes e um centro bem antigo e charmoso repleto de bonitas galerias.
Logo nas primeiras semanas criei uma rotina de trabalho. Entrava no estúdio bem cedo, como a maioria dos bailarinos da companhia, fazia aula e geralmente um ensaio antes do intervalo para almoço. Trazia uma marmita de casa já que não havia muito comércio ao redor de West Park. Terminava por volta das seis horas e pegava o ônibus de volta para casa, ou uma carona com amigos.
Morava numa quitinete que meus pais haviam encontrado em um anúncio de janela. Era numa antiga mansão, que batizamos de 'A Casa da Família Adams', meio assustadora por fora, mas se não julgar pela aparência exterior, era espaçosa e aconchegante e localizava-se a uma curta jornada de ônibus para o trabalho. Foi tão bom ter minha família por perto me apoiando nessa transição, mas eu sabia que não demoraria muito até que tivesse que enfrentar meu dia a dia sozinha, em outro país desconhecido, e dessa vez do outro lado do oceano.
Mas um sonho de menina, ao se tornar realidade, é muito diferente de um conto de fadas. É fácil dizer que queremos ser bailarinos, mas o nível de comprometimento só aumenta e os desafios da carreira sempre farão parte do nosso cotidiano. Como toda profissão, ela tem sua beleza e suas dificuldades, as alegrias e as lágrimas, e muito, mas muito suor. É um contínuo teste de ambição e motivação em todos os sentidos.
O maior desafio ao adaptar-me à vida profissional foi aprender o repertório da companhia e adquirir novas habilidades para me sair bem no corpo de baile, além de ter que me acostumar com a vida na estrada, se apresentando pelo Reino Unido, um roteiro intenso de espetáculos. Há muito a ser aprendido e processado, queremos provar nosso valor e adquirir a confiança dos ensaiadores e colegas de trabalho.

Autonomia e responsabilidade
O balé faz parte de nossas vidas desde que nos conhecemos por gente. Treinamos todos os dias e participamos de competições e eventos escolares que exigem muitos ensaios, mas o ritmo de trabalho de uma companhia é bem diferente. A aula de ballet passa a não ser mais o foco principal, os professores não estão ali para lembrá-lo repetidamente de seus maus hábitos, forçando-o a repetir exercícios, fazendo com que você termine a aula. Agora, aulas diárias passam a requerer autocorreção e muita força de vontade, principalmente quando se está cansado em meio a longas temporadas.
Neste sentido, tive muita sorte. Estava numa companhia onde se preocupavam muito em nos desenvolver como bailarinos, em moldar nossa técnica e ensinar que deveríamos nos cuidar para evitar lesões. Havia muito o que assimilar, mas agora percebo que esse período era uma ponte que unia minha vida estudantil e profissional, permitindo que eu construísse a base forte de uma carreira longa e saudável. Ali, desenvolvia boa ética de trabalho e reforçava bons habitos. A disciplina estivera sempre no topo da lista.

Por sermos tantos bailarinos novatos, recebíamos cuidados especiais e até aulas particulares. Fomos detalhadamente apresentados à visão da companhia e sua abordagem à técnica clássica para que pudéssemos nos encaixar perfeitamente. Eu respeitava sua filosofia e procurava integrar tudo em minha rotina, mas ainda assim, tive que ter a mente aberta sobre como as coisas funcionavam em uma companhia. Há sempre um período de adaptação, um longo caminho de aprendizado e encaixe. Acima de tudo, é importante acreditar em seu propósito para que o trabalho também seja significativo para você, que não acabe apenas agradando aos outros.
O que mais gostava no Northern Ballet eram as turnês. Sentia-me fazendo parte de uma grande e importante missão: levar a dança a um público amplo, a lugares remotos do Reino Unido e Irlanda. Toda semana uma nova cidade, um novo teatro, um albergue diferente. Realizávamos sete espetáculos por semana - de terça a sábado - tendo os domingos de descanso para na segunda-feira viajar ao próximo destino. Mas a vida em turnê é um tema a ser abordado mais tarde, pois merece seu próprio capítulo.

Faça sua lição de casa
Ser novo na companhia significa que todo o repertório será novidade para você, mas não necessariamente para os outros bailarinos. Eles podem já ter apresentado o balé várias vezes, e podem não levar muito tempo para relembrar de tudo. De fato, bailarinos possuem uma incrível capacidade de recordar passos de uma coreografia. No minuto em que ouvimos a música, é como se nosso corpo dançasse sozinho. O balé permanece em nossa memória muscular, como que impressos.
Os ensaios podem parecer insuficientes, pois o repertorio é vasto e complexo. Muitas vezes, sentia-me prestes a entrar em pânico no estúdio, tentando ao máximo acompanhar meus colegas enquanto pareciam já ensaiar aquilo há meses. Eu me esforçava para lembrar do que vinha a seguir, que passos, e em qual direção, atras de que menina?? Percebi que era melhor estar um pouco mais preparada, pelo menos saber o que esperar de uma coreografia talvez fazendo uma pequena pesquisa antecipada, assistindo a produções anteriores do arquivo da companhia.
Como na época não tinha acesso a filmagens antigas, tudo que podia fazer era realmente me concentrar e ganhar agilidade, e o mais importante: chegar cedo antes do próximo ensaio para relembrar tudo o que já havia sido aprendido. Os ensaiadores não gostam de perder tempo naquilo que já foi explicado, e os colegas também apreciam alguem confiável que estuda e sabe tudo direitinho. O ritmo de ensaios é dez vezes mais rápido que na escola, e você pode estar aprendendo dois ou três balés novos ao mesmo tempo.

Seu trabalho como membro de um corpo de baile não é se destacar, e sim mover-se com os outros como um só corpo. É trabalhar em conjunto, fazer exatamente a mesma cabeça e braços, cada passo exatamente ao mesmo tempo e MANTER A FILA! É algo que só se aprende com experiência, antecipando e seguindo com exatidão movimentos de outras bailarinas e usando sua visão periférica. Basicamente, se você não está chamando muita atenção, está fazendo um ótimo trabalho!
'Izzy!!! Você está fora da linha novamente!' vinham os gritos da frente da sala.
Sério? Mas juro que estava prestando atenção e tomando todo o cuidado! Costumava me chatear por ouvir meu nome sendo marcado na frente de todos. Queria me esconder, enterrar a cabeça na areia, tornar-me invisível!

Seu corpo é seu instrumento
Após a euforia inicial de um novo emprego, é fácil cair no hábito de não terminar as aulas (ou faltar logo de vez). Fazer aula de ballet todos os dias não é obrigatório, mas é algo fundamental na carreira de um bailarino. Dependendo da rotina de ensaios e possíveis lesões que ocorrem no meio do caminho, precisa-se avaliar o que é melhor para o seu corpo e mente a fim de se manter forte e saudável. Isso pode significar não exercer esforço máximo na primeira hora do dia, e sim conservar energia.
Ao consultarem um fisioterapeuta da companhia, os bailarinos podem ser aconselhados a não saltarem em aula todos os dias a fim de diminuírem o impacto que possa gerar uma lesāo por estresse nos ossos, bem comum nos primeiros anos de profissão. Isso fui descobrir mais tarde, por experiência própria. Existem outras maneiras de fortalecer os saltos sem causar tanto impacto nas canelas, como uma sessão de academia. Não é tão raro que, ingressando direto da escola, o bailarino se machuque em seu primeiro ano. A carga de trabalho é mais pesada, com até seis horas de ensaios no dia, sem mencionar a quantidade de espetáculos. Até que se descubra um equilíbrio entre trabalho e descanso, o corpo sofre as consequências.
Nunca passei por uma séria lesão no Northern Ballet, mas não levo todo o mérito por isso. A companhia me ensinou a importância de um bom treinamento e manutenção do corpo para a prevenção de lesões. Por ser uma companhia de porte médio, com apenas quarenta bailarinos, precisavam que todos estivessem saudáveis e prontos para trabalhar. Massagem e fisioterapia viraram parte da minha rotina, assim como banhos de gelo ou um banho de banheira relaxante após um dia pesado, alem de recorrer a exercícios de fortalecimento, pilates e natação.

Não existe papel que não seja importante
Solista ou não, todo papel é importante num espetáculo. Isso é algo que o Northern Ballet enfatizava bastante e que demorei muito a compreender. A natureza do trabalho da companhia exigia excelente atuação e presença em cena, eram conhecidos por seus balés narrativos e aprendi o quanto cada papel é essencial em criar uma atmosfera no palco, isso era cumprir meu trabalho como narrador de uma história.
Como nova membra da companhia, comecei fazendo pequenos papéis - a mendiga, a camareira, a prostituta. Perdi a conta de quantos papéis de empregada criei, e eles continuariam vindo a mim por muitos anos. Devo ter me destacado neles, sendo pequenina e tudo o mais. Não devemos subestimar o quão difícil é desempenhar esses papéis, ser responsável por manusear copos e objetos, mover móveis em trocas de cenário e coordenar mudanças rápidas de figurino no palco. Chega a ser mais estressante do que dançar um solo!
Quando entramos numa companhia, temos que reconquistar nosso lugar e fazer surgir novas oportunidades. Não importa o quão excelente fomos na escola e quantos solos já dançamos, pois agora seu trabalho é manter-se esperto e atento, saber diversos lugares numa só coreografia, praticar nos fundos da sala se necessário até que demonstre ser confiavel. Foi difícil me encontrar no fim da lista de um elenco, esperando por uma oportunidade de dançar, mas dessa forma pude aprender muito assistindo bailarinos mais experientes. Sua maturidade, técnica e arte me inspiravam todos os dias.

O Northern Ballet me ensinou a não dar nada por certo. Tive que me esforçar cada dia mais para alcançar meus objetivos. A vantagem de se começar numa companhia menor, especialmente uma que viaja por toda a parte, é que se sente parte de uma família. Além disso, tem mais chances de ser notado. Com o tempo, comecei a ter papéis e oportunidades maiores, mas nos momentos em que imaginava ter tudo sob controle, me punham para correr atrás.
A confiança de um bailarino é fortemente abalada por qualquer decisão de casting. Na minha primeira temporada, cheguei até a acreditar que seria demitida, que meu contrato não seria renovado por não cumprir com as expectativas. Havia sido escolhida para ser Clara em O Quebra Nozes. Imaginem minha surpresa e alegria! Fiz os ensaios e tudo o mais, mas quando vejo o elenco final de apresentações no quadro de avisos, meu nome não estava mais lá. Simplesmente assim, sem mais nem menos. Não entendi o que havia mudado e isso me perturbou profundamente. Seria algum tipo de psicologia reversa?? Ou decidiram no último instante que não estava pronta? No ano seguinte, felizmente, pude fazer minha estreia.
Um papel que sempre sonhei dançar no Quebra Nozes - a Fada Açucarada - viria um pouco mais tarde, com um pouco mais de suor (e de lágrimas). Na versão do Northern Ballet, a Sugar Plum Fairy (Louise) dança tanto no primeiro quanto segundo atos. Achava aquela personagem adorável, e me lembro de estrear o papel em Aylesbury. Ao final do espetáculo, quando entrei no camarim, tive uma profunda crise de choro. Todos me olhavam com olhares preocupados, achando que havia me machucado, mas acho que fui tomada por uma onda de alívio... e exaustão!

O papel de 'Louise' me fez crescer e amadurecer como bailarina, mais do que qualquer outro até então. Foi um grande teste de força e resiliência, assim como o grand pas de deux de Don Quixote, alguns anos depois, no Grand Theatre em Leeds. Detalhe: o palco do teatro era altamente inclinado, assim como outros em que dançávamos por aí, aumentando o desafio.

Vivendo e aprendendo
Quando iniciei minha vida profissional, tinha a estranha ideia de que havia atingido o meu auge, que talvez esta já fosse minha melhor versão como bailarina. Mas que bobagem! Não sei nem de onde tirei isso, mas ao longo do tempo percebi que ainda havia muito espaço para melhorias, e a cada ano que passava me sentia crescendo. Em um certo ponto, talvez no meu quarto ou quinto ano, senti como se tivesse "caído a fixa". Comecei a entender como utilizar meu treinamento diário e incorporá-lo nas minhas apresentações, ganhando mais controle técnico e segurança para desenvolver artisticamente.
Aos meus trinta anos, ainda sinto que estou me desenvolvendo como bailarina e ser humano. O fato é que nunca pararemos de nos aperfeiçoarmos. Quando chegamos a entender melhor o nosso corpo, podemos usá-lo com mais eficiência. Aprendemos a equilibrar a vida e o trabalho, um complementando ao outro. Não apenas dependemos da carreira para ser feliz, e sim do estilo de vida que levamos. Estando bem consigo mesma, qualquer ambiente se torna mais leve, alegre e significativo. Dias de lazer, como passear ou fazer coisas que te dão prazer, amenizam a pressão e o estresse de qualquer profissão.


O início da carreira de uma bailarina pode parecer frustrante. Você quer dançar mais, ganhar papéis de destaque, receber mais atenção, mas o segredo para um futuro promissor é aproveitar ao máximo cada papel que lhe é confiado e executá-lo com o maior amor e carinho.
Não existe aquela história de 'Ah! Estou escondida lá atrás mesmo, ninguém vai me ver. Se sua luz brilhar, independente de que lugar da fila estiver, não há alma no auditório que não o notará. Mais papéis virão quando você estiver pronto para eles, e o sabor da vitória é mais doce quando se trabalha duro por merecê-los.
Ensaiando um solo para A Christmas Carol com ballet master Dan de Andrade, a única imagem que tenho dos anos em West Park, antes da companhia se mudar para novas instalações no centro de Leeds. Este foi um dos meus primeiros papéis de solista - o 'Ghost of Christmas Past'.






















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