top of page

Primeiros passos parte II - a vida em turnês

  • Foto do escritor: Isabella Gasparini
    Isabella Gasparini
  • há 2 dias
  • 9 min de leitura

Quando ainda em Toronto no meu ano de formatura, recebi convite de um amigo e sua esposa para jantar num chique restaurante no centro da cidade. Ao entrarmos, no canto de uma área externa, uma senhora esquisita estava a oferecer leituras psíquicas. Que coisa estranha para se ter em um restaurante... pensei. Minhas amigas também ficaram intrigadas, mas todas tivemos nossa vez de conversar com ela no decorrer da noite.


Ao me sentar em sua mesinha a senhora perguntou qual era o meu maior sonho, e eu disse que queria me tornar uma bailarina profissional, viajar pela Europa e apresentar a diversos públicos. 'Sim,' ela disse. 'Você irá para a Europa e viajará muito!' Imaginei que estava apenas me dizendo o que eu mais queria ouvir, mas logo descobriria que, afinal, ela estava certa, e que este seria o primeiro de muitos encontros "estranhos" em que previsões se mostrariam verdadeiras.


Meu estilo de vida mudara muito desde que me estabeleci em Londres e por vários motivos, um deles sendo que o Royal Ballet só se apresenta no Royal Opera House, em Covent Garden, com exceção de uma turnê internacional por ano. Basicamente, moramos no teatro. Os camarins são cheios de coisas pessoais que vão se acumulando ao longo dos anos, algumas delas ninguém nem reconhece e provavelmente pertencem a alguém que deixou a companhia há muito tempo.


Primeira turnê com NBT
Primeira turnê com NBT

Sempre me recordo dos anos em que me encontrava cada semana em um camarim diferente, com poucos collants limpos para escolher. Além de viver só de uma malinha de viagem, cada bailarino podia levar um 'skip', uma caixa com pertences de balé a ser transportada para cada local. No meu skip eu colocava maquiagem para o palco, coisas de cabelo, roupas de balé - collants, meias-calças, polainas - uma mini chaleira elétrica, livros e sapatilhas.


Entrei para o Northern Ballet Theatre em julho de 2007. Sabia que era uma companhia onde faziam muitas turnês, mas não poderia imaginar a regularidade com que a companhia viajava e os pontos fortes e dificuldades de viver em constante deslocamento. Nossas turnês incorporavam as capitais da Grã-Bretanha - Londres, Belfast, Edimburgo, Cardiff - entre outras cidades como Manchester, Newcastle, Milton Keynes e algumas menores como Woking, Canterbury, Norwich e assim por diante ...


Toda terça-feira, ao chegar cedo no teatro, íamos buscar o nosso skip. Subia e descia lances de escadas procurando por meu nome na porta dos camarins, arranjava um lugarzinho ao espelho e me ajeitava para a semana.



Os bailarinos costumavam cuidar de todos os preparativos de viagem e hospedagem. O primeiro ano foi o mais difícil para mim pois ainda não tinha feito muitos amigos e não conhecia nenhuma daquelas cidades, e a lista era gigantesca! Lembro de pensar ... onde diabos fica Llandudno?? Após visitar cada cidade, acabei encontrando meus lugares favoritos e tendia a voltar às mesmas hospedagens. A maioria eram casas de velhinhos que frequentavam o teatro e ficavam felizes em acomodar os artistas, mas também hotéis econômicos como o Travelodge, convenientemente localizados a minutos do teatro. Reservar com antecedência era fundamental para garantir disponibilidade.


Valia mais a pena dividir uma casa ou apartamento com meus colegas, além de ser bem mais divertido! Certa vez, fizemos uma bela festa num apartamento em Belfast com direito a pizza, jogos e algumas garrafas de vinho, que marcou o fim de uma longa turnê! Outra ocasião especial foi um casarão que alugamos entre doze pessoas em Bath. Era a primeira vez que eu visitava a cidade e me apaixonei por sua arquitetura, os famosos Roman baths, pelo centro e seus arredores de campos, antigas livrarias e cafés.


O casarão em que ficamos parecia até um museu, cheio de quadros e pinturas, cerâmicas maravilhosas, uma vista incrível da cidade e aquela cozinha enooorme … era maravilhoso! Fomos super cuidadosos com tudo, mas passaram-se uns dias e recebemos um telefonema dos proprietários nos acusando de termos quebrado um vaso antigo ou algo de valor alto, e ameaçavam ficar com o nosso dinheiro do depósito. No fim das contas, nós os convencemos de que não éramos os culpados, e foi só um belo susto.



Nas minhas primeiras turnês, eu aproveitava todas as oportunidades para explorar os arredores dos teatros e além. Tínhamos algumas manhãs livres, e como sempre gostei de acordar cedo, eu levantava, tomava meu café da manhã e saía para passear. Com o passar dos anos, as cidades se repetiam e perdi meu espírito aventureiro. Então, costumava chegar no teatro bem cedo e usar minhas manhãs para fazer pilates, exercícios na bicicleta, ou senão tomava um segundo café no Starbucks acompanhada de um bom livro.

 

Domingos eram de folga e descanso. Segundas-feiras: dia de viajar. Terças-feiras: o 'get-in', chegada ao teatro. A aula começava às 12h com todos no palco, seguida por um ensaio geral e a noite de abertura. Os espetáculos aconteciam todas as noites de terça a sábado, incluindo duas matinés às quintas e sábados, totalizando sete apresentações por semana. Toda hora de almoço ou intervalo entre ensaios e apresentação, saía do teatro para tomar um pouco de ar fresco. Costumava me sentar em um café próximo, ligar para minha mãe ou namorado, e descansava até a hora de me arrumar. Isso se tornou minha rotina de trabalho.



Nossa diária ou per diem era suficiente para cobrir transporte, acomodação e alimentação. Segundo as regras da companhia, deveríamos ficar hospedados a não mais que 24 km de distância do teatro, mas para guardar um dinheirinho, toda vez que nos apresentávamos em Sheffield ( a 63 km de Leeds) alguns de nós - ‘os espertinhos’ - dormíamos em casa e pegávamos a estrada diariamente. Numa semana de apresentações de Madame Butterfly peguei carona logo cedo com um dos bailarinos e seguimos ao Teatro Lyceum. De repente, nos vimos presos num trânsito horrível! Tinha acabado de ocorrer um acidente e os carros não andavam a lugar nenhum.


O que devia ter sido uma viagem de 45 minutos levou 3 horas, as horas mais longas de minha vida! Não chegamos a tempo na aula, e a direção da companhia desconfiou do motivo por estarmos atrasados ​​e tão transtornados. Fomos chamados um por um ao escritório e todos nós recebemos uma bela bronca e uma carta de aviso. Depois desse pequeno episódio, tive que ter um super cuidado e seguir direitinho as regras do contrato. Logo encontrei uma alternativa para Sheffield: teria de me contentar com o adorável Ibis Sheffield City.


 'Home sweet home'.
'Home sweet home'.
Turnês 2010-11
Turnês 2010-11

Alguns teatros estão localizados perto de shopping centers, com muitas opções para refeições e cafezinhos. Minha mãe, que costumava visitar bastante e me acompanhou em várias turnês, buscava por um café Costa ou Starbucks nas proximidades que sempre serviam como nosso ponto de encontro. Passava minhas horas livres com ela, conversando, passeando pelas ruas bonitas de Canterbury, Bath, Cardiff e Edinburgh, nossas favoritas.

Voltávamos ao teatro pelo menos duas horas antes da apresentação começar, com tempo suficiente para me arrumar e me aquecer.


Sempre fui um pouco paranóica com meus horários, constantemente preocupada por me atrasar ou por não ter verificado o elenco corretamente. Até hoje tenho o mesmo pesadelo: cosciente de que deveria estar no palco, ouço a minha música tocar mas estou perdida e não consigo encontrar o caminho para as coxias, ou amarrar as fitas da minha sapatilha.

Em toda chamada de trinta minutos, já estava no palco me aquecendo com outras bailarinos, praticando e me concentrando.



Nas turnês, dançávamos o mesmo espetáculo por cinco a oito semanas. Os balés permaneciam frescos em minha mente, ao contrário de agora, onde as produções se sobrepõem. O repertório do Royal Ballet é bem diversificado e isso é maravilhoso, mas toda vez que deixo de apresentar algo por uns dias ou semanas, aquilo é posto de lado e ‘esquecido’ em meio a tantas outras coisas sendo ensaiadas e apresentadas, e parece que os nervos estão sempre a flor da pele mesmo já tendo feito espetáculos do mesmo balé antes.


Também é gratificante poder dançar algo repetidamente e perceber que as coisas começam a se tornar mais fáceis e naturais a cada apresentação; porém, no meu último ano em turnê, sentia-me tão entediada e cansada daquela repetição que mal podia esperar por umas fêrias, ou por um repertório diferente.


R&J em Norwich - última noite em temporada
R&J em Norwich - última noite em temporada

Sempre enxerguei o Northern Ballet como uma grande família, respeitável e inspiradora. Desde nossa chegada ao teatro nas manhãs de terça-feira até o fechar das cortinas no sábado à noite, passava o tempo todo com aquelas mesmas pessoas pra lá e pra cá nos camarins (especialmente em dias de chuva) e até mesmo em dias que não me apresentava, já que tinha que permanecer no teatro até que a cortina subisse no último ato. Ficava sentada no camarim acompanhando a performance, costurando sapatilhas, ou arrumando minhas coisas para o 'get out' do dia seguinte. Éramos um grupinho bem unido, viajando sempre juntos, como uma caravana de ciganos.


Amigo Secreto em Leeds - 2008
Amigo Secreto em Leeds - 2008

Terminada a temporada, passávamos algumas semanas ensaiando em West Park e, eventualmente, na nova sede da companhia em Quarry Hill. Sentia-me reconfortada por estar em casa, podendo cozinhar minhas próprias refeições, tendo noites livres para assistir TV e podendo levar uma vida mais "normal" até que a próxima turnê começasse. Era um momento de pausa, o que não significa que não estávamos trabalhando intensamente, ocupados em preparar um próximo espetáculo ou criando algo novo. Procurava me esforçar ainda mais nas aulas, já que estávamos em uma sala de aula adequada e com espelhos.



Os balés narrativos eram a nossa marca registrada. O Northern Ballet causava o maior impacto contando histórias, percorrendo produções antigas e novas por todo o Reino Unido (e ocasionalmente no exterior). Uma de minhas lembranças mais queridas é a do balé Cleópatra, pois pela primeira vez fazia parte da criação de algo novo, via uma história ganhar vida e testemunhei a colaboração de coreógrafo, compositor, bailarinos, cenógrafo, figurinista e todo o trabalho envolvido em um espetáculo de dança.


Foi tão emocionante fazer parte do processo criativo desta grande produção, que marcava uma década desde que David Nixon tornara-se diretor. David coreografou às belas partituras de Claude-Michel Schönberg (compositor de Les Miserables ) e trabalhou em estreita colaboração com a dramaturga Patricia Doyle, a quem aprecio muito por sua contribuição na caracterização de cada personagem. Vivia ansiosa mas também com medo de decepcionar o David no estúdio porque não me via como uma pessoa muito criativa, e um bom bailarino sempre ajuda o coreógrafo a desenvolver suas ideias.



Após uma noite de abertura bem-sucedida no Leeds Grand Theatre em fevereiro de 2011 (fora um pequeno problema técnico: a 'cama' ficou presa nas coxias e tivemos que improvisar uma cena de orgia no chão), levamos Cleópatra em uma ampla turnê nacional por onze cidades.


Na mesma temporada, também fizemos Peter Pan, Dangerous Liaisons, O Lago dos Cisnes, Madame Butterfly e O Quebra Nozes, um total de 140 apresentações durante 22 semanas de turnê, sem mencionar uma Gala no Leeds Grand Theatre comemorando o 40º aniversário da companhia.


Noite de abertura Cleopatra - Leeds Grand Theatre
Noite de abertura Cleopatra - Leeds Grand Theatre

O objetivo do Northern Ballet sempre foi atingir uma plateia diversificada, com interpretações de balés clássicos e novas produções. Nos cinco anos e meio em que trabalhei com a companhia, participei de balés que atraíram todas as gerações, inclusive bebês! Fui a personagem principal em O Patinho Feio, coreografado pelos bailarinos Dreda Blow e Sebastian Loe.



Que honra ter feito a primeira de muitas produções que seriam criadas especialmente para ma audiência infantil. O Patinho Feio foi adaptado pelo canal BBC para o CBeebies, um programa de tv infantil, e ganhou até um prêmio BAFTA! Lembro de fazer um ensaio geral no Stanley Burton Theatre, Quarry Hill, pela manhã e literalmente correr para o West Yorkshire Playhouse para fazer nossa estréia de Ondine.


Beatrice em Ondine
Beatrice em Ondine

Em 2013 criamos outro grande balé -The Great Gatsby - baseado no clássico romance norte-americano da década de 1920. Todos os bailarinos, sem excessão, tiveram que aprender a dançar 'charleston' e tango, tivemos até aulas com profissionais do ramo para que pudéssemos retratar cenas autênticas das glamorosas festas da época. E novamente pudemos contar com a ajuda de Pat Doyle, que deu a cada um de nós um personagem para atuar na história e contribuir com a atmosfera cênica.


No total, fizemos 200 apresentações nessa temporada, viajando de Edimburgo a Canterbury, com muitas paradas no caminho. Mas o meu destino final com o Northern Ballet se aproximava...



Terminei mais uma temporada e meu contrato com a companhia em puro êxtase, dançando Gatsby no teatro Sadler's Wells. Sempre me emocionei por estar me apresentando em Londres, como se soubesse que um dia esta seria minha casa, e aqui eu permaneceria, pronta para iniciar os ensaios de O Lago dos Cisnes on-the-round com o English National Ballet.


Apesar de tantas viagens, tantas mudanças de teatro, de palco inclinado a reto, e de tantos espetáculos, de certa maneira agora sinto que minha vida no Northern não era assim tão agitada como agora. Acho que aprendi a me adaptar, a encontrar o sossego em meio as jornadas e compromissos, a desfrutar da beleza de cada cidadezinha e de alcançar públicos que talvez não tivessem acesso ao nosso nível de dança.

 

Sinto saudades daquela família mas sei que fiz a escolha certa em seguir em frente. Foi um longo período de crescimento e aprendizado e serei eternamente grata por ter sido rodeada de artistas trabalhadores e inspiradores que me serviram de grande exemplo. Houveram algumas pedras no caminho sim, mas as boas lembranças são sempre as que permanecem mais forte em nossos corações.



'Às vezes, você nunca saberá o valor de um momento até que se torne uma memória' - Dr Suess



Northern Ballet - Criando Cleopatra


 
 
 

Comentários


bottom of page