Um ciclo completo

Tinha dezoito anos quando me mudei para Leeds. Chegava com uma carga pesada de malas que trazia de Toronto e do Brasil para o início de minha nova vida europeia, com a família me acompanhando. Prioridade na lista era encontrarmos um lar adequado. Procuramos por vários dias enquanto ficávamos num hotel mais em conta, os quatro espremidos em um só quarto. Finalmente deparamos com o anúncio na vitrine de um apartamento já disponível perto de West Park, onde se localizava o Northern Ballet. Meu pai nos levou até o endereço. Ficava em uma rua sem saída, perto da Headingley lane, com pouquíssimo tráfego e bastante verde. Encontramos o simpático proprietário cortando a grama do jardim, e ele logo nos deixou entrar para ver o espaço.


O piso antigo rangia enquanto subíamos as escadas circulares para o segundo andar, e as paredes precisavam de uma nova pintura urgente, mas o local era perfeitamente silencioso e ideal para ocupação individual, com tetos bem altos, cozinha decente, uma cama de casal numa sala espaçosa e uma bela banheira, útil para quem vive na ativa. Me mudei no dia seguinte!



Suas janelas de guilhotina se abriam para o telhado, com vista para o jardim, onde eu tomava sol em raras ocasiões de bom tempo. No inverno, tinha que pedir um aquecedor elétrico emprestado, pois o aquecimento da calefação não era suficiente para aquele frio, mas o proprietário John, que morava ao lado, estava sempre prestes a ajudar. Eu pagava £350 / mês de aluguel (o que comparado a Londres, é uma pechincha!) Morei ali por alguns anos, antes que o Northern Ballet se mudasse para novas instalações em Quarry Hill, no centro da cidade.

Sempre carreguei dentro de mim um sentimento de gratidão e deslumbramento que as coisas tenham dado tão certo, que depois de treinar em uma boa escola no Canadá eu vim para a Europa para me estabelecer como bailarina, que é o que sempre quis. Depois de uma semana ou mais, meus pais e irmão voltaram para o Brasil, e eu mergulhei em minha rotina do balé e curtia minha nova independência financeira, mal entendendo o sotaque inglês do norte. Fazia muito frio e o céu estava sempre cinza, com muita chuva, mas isso realmente não importava. Isso tudo era apenas o começo. O Northern Ballet foi minha porta de entrada à Europa e à vida profissional, e que inicio mais brilhante!


A companhia em West Park - Leeds (eu de calça listrada a esquerda).

Northern Ballet & Phoenix Dance Theatre - Quarry Hill

Para mim, este nunca foi apenas um emprego; apeguei-me demais à companhia, ao meu trabalho e aos colegas. Como bailarina, a gente se sente muito sortuda já por ter um emprego, pois é tão difícil arranjar um contrato em qualquer lugar, ainda mais em uma companhia de prestígio como o Northern Ballet. Sempre me considerei privilegiada, e não demorou muito para que me sentisse em casa. Estava tão longe da minha própria família e ainda tão jovem, por isso agarrei-me ao meu amor pela dança e à minha fé. Passei quase seis anos completos em Leeds, aprendendo e crescendo tanto profissional quanto pessoalmente.


With Northern Ballet in Swan Lake.

Antes que percebesse, estava chegando aos meus vinte e poucos anos. Se fosse mesmo me aventurar e seguir meus sonhos, mirando um pouco mais alto, a hora de agir era aquela. Em retrospecto, sei que se tivesse ficado, teria feito uma ótima carreira, mas tive que reconhecer que parte de mim se inquietava mais e mais, e vivia insatisfeita. Nem sempre o que pensamos ser suficiente nos faz feliz, as vezes o nosso instinto fala mais alto. Fiz amigos maravilhosos, dancei MUITO e aproveitei cada momento dentro e fora do palco, mas chegara a hora de seguir em frente.

Existem várias razões pelas quais alguém decide deixar um emprego, mas acho que para a maioria, não é uma decisão fácil. Para bailarinos, a companhia pode não ser a adequada, as condições de trabalho ruins, o repertório pode não se adequar ao seu perfil, ou as vezes até seja uma questão de má adaptação ao clima e à cultura. Nada disso foi o meu caso. De certa forma, me sentia culpada por largar um emprego incrível, pelo qual muitos bailarinos no Brasil dariam a alma para ter. Mesmo algo me dizendo que era a coisa certa, sentia-me muito dividida, como se estivesse deixando uma parte de mim para trás. Levei um tempo para encontrar coragem, mas quando chegou a hora, fiz questão de fazer tudo 'da maneira certa', sempre com honestidade e respeito, para não perder o amor e apoio que ali havia encontrado.

Talvez, no meu subconsciente, eu já deixava as portas abertas para um breve retorno...


Com a cia em Wuthering Heights.

Com Toby Batley em Perpetuum Mobile.

Mesmo depois de partir, nunca me senti distante do Northern Ballet. Logo comecei a imaginar como seria maravilhoso voltar e dançar como convidada. Esse cenário cresceu em minha mente e coração, mas o mais perto que havia chegado foi dividir o palco com eles em um evento realizado na Royal Opera House alguns anos depois, uma celebração nacional onde seis companhias britânicas se reuniram para marcar o 25o aniversário da morte do coreógrafo Kenneth Macmillan, e entre estas estava o Northern Ballet.

Nas noites de apresentações eu fiz o corpo de baile em Elite Syncopations, mas fiz questão de me posicionar estrategicamente na frente enquanto assistia seus bailarinos mais brilhantes dançarem, dando-lhes todo o meu apoio e energia. E eles arrasaram! Foi tão maravilhoso poder rever a todos e recebê-los em Londres, e mais comovente ainda por eu saber o quão emocionados também deveriam estar, o quão surreal era poder ter a chance de se apresentar neste teatro. Fiquei a pensar ... O que eu não teria dado por uma oportunidade como esta quando era mais jovem! ...


Pronta para Elite Syncopations.

Showtime, assistindo do canto direito.

Matando saudades da Rachel, pos-aula.

Na primeira vez que subi ao palco da Royal Opera House, ainda era uma bailarina do Northern Ballet. Quatro de nós fomos escolhidos em uma espécie de sorteio para participar de um evento de arrecadação de fundos, e fui um dos sortudos. Viajamos para Londres, assistimos a uma apresentação seguida de uma recepção, onde troquei palavras com a então diretora artística do Royal Ballet, a senhora Monica Mason, e fiquei muito feliz porque ela pareceu me reconhecer da audição de alguns anos antes. Talvez estivesse apenas querendo ser simpática, vai saber?

O ponto alto da noite, no entanto, foi fazermos um tour pelos bastidores. Entramos no camarote da rainha e atravessamos aquele palco magnífico, eu ciente de que estava de salto e, não querendo danificar o linóleo, pisava quase na ponta dos meus sapatinhos. Não fazia ideia na época de como isso me seria familiar, mas aquele momento mexeu sim com meus sentimentos, despertando sonhos que eu já havia secretamente enterrado.


Kenny, Hannah, eu e Thomas no palco do Royal.

Oito anos se passaram desde o dia da minha última apresentação com o Northern Ballet em Sadler's Wells. Durante esse tempo, houveram momentos de dúvida e medo em que me perguntei se havia tomado a decisão certa, mesmo depois de já ter garantido o emprego dos meus sonhos. Comecei a apreciar ainda mais o trabalho do Northern Ballet e admirar seu estilo, sua visão artística e comprometimento. Visitava amigos em Leeds e assistia à apresentações sempre que podia, nunca deixando de lado seus ensinamentos.

Quando recebi a notícia da aposentadoria de David Nixon como diretor artístico, senti como se tivesse chegado ao fim de uma era, o que também significava para mim que, provavelmente, nunca mais voltaria a me apresentar com eles, muito menos como convidada. Ninguém me conhecia tão bem quanto o David, foi ele quem me trouxe para trabalhar em sua companhia e reconhece meus fortes laços com o Northern Ballet (fiz questão de escrevê-lo muitos cartões de agradecimento ao longo dos anos). Estou muito feliz por ter expressado meus desejos a David, e que a oportunidade perfeita tenha surgido para que eu dançasse como convidada em seu Dangerous Liaisons (Relaçoes Perigosas), o mesmo balé que vi a companhia apresentar em Londres no verão passado, e que também dancei em meus primeiros anos com a companhia.


Como Cecile em Dangerous Liaisons - 2010.

A jovem Cecile foi um dos meus primeiros papéis de destaque. Desta vez, estaria retratando Madame de Tourvel, umamulher casada e madura que se deixa seduzir pelo Visconde de Valmont, acabando com seu coração partido e emocionalmente destruída. É um personagem forte e tive muito a desenvolver no decorrer de duas semanas, mas estava em muito boas mãos, com os melhores professores, um excelente partner, e um elenco incrível.

Contar histórias sempre foi minha paixão, e foi através dos balés e personagens de David que pude aprender e evoluir para a artista que sou hoje. Tivemos nossos altos e baixos, mas só quando olho para trás, percebo o que tive de tão valioso e aprecio as coisas um milhão de vezes mais.



Não poderia ter encontrado melhor maneira de comemorar seu legado e expressar minha gratidão a David e sua esposa, Yoko, por liderarem o caminho. Estabeleceram padrões elevados desde o princípio, e nunca me deixaram esquecer a arte especial a que nos dedicamos, uma arte que merece nossa maior dedicação e respeito.

Essas semanas que passei com o Northern Ballet me fizeram relembrar de tudo que aprendi como jovem bailarina no início de minha carreira; a importância da disciplina, do trabalho árduo, da resiliência, do comprometimento e do talento artístico. Pude reconhecer que lancei bases sólidas para continuar neste caminho, e que mesmo que me levasse a outro lugar, sempre me lembraria da minha passagem pelo Northern Ballet (e de meus breves retornos) com muito carinho.


Dangerous Liaisons - 2021 © Northern Ballet

Muitas vezes na vida completamos um ciclo. Andamos de um lado para o outro, mesmo por anos, mas de um jeito ou de outro nos vemos voltando ao ponto de partida, sendo capazes de avaliar plenamente onde estamos e o que nos levou a chegar lá. Voltar a esses lugares e memórias nos ajuda a ver o quão longe chegamos!



Não importa onde estejamos no mundo, sempre seremos gratos àqueles que entram em nossas vidas e deixam suas marcas, nos ajudam a crescer, especialmente aqueles que nos desafiam, testando nossa coragem, vontade e fé. É assim que descobrimos onde está nossa verdadeira força e a extensão de nosso amor e compromisso.



Postagens anteriores First steps e First steps II: the life of a touring company , onde falo mais sobre o começo de carreira, oportunidades e desafios sendo nova integrante de uma companhia e dançando em turnês (com traduções em português logo abaixo).


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