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A Audição

  • Foto do escritor: Isabella Gasparini
    Isabella Gasparini
  • há 5 dias
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

No ano seguinte à formatura, aventurei-me sozinha em Londres com um único objetivo: conseguir um contrato de trabalho. Chegava no centro da cidade com uma mala pesada, a preciosa mochila de sapatilhas e vestes de balé nas costas e o bolso cheio de sonhos. 'Sempre viaje com os essenciais, um par ou dois de sapatilhas e um collant e meia nas mãos, caso sua mala extravie, dissera Mavis, minha diretora, e desde então assim faço.


Logo ao sair da estação de metrô fui recebida por Tara, uma canadense que se formara na mesma escola que eu. Não nos conhecíamos pessoalmente pois ela era alguns anos mais velha, e quando entrei na Escola Nacional de Ballet do Canada, ela acabara de se mudar para Londres e juntar-se ao prestigioso corpo de baile do Royal Ballet. Mas o mundo da dança é pequeno, e graças ao contato de Mavis, nossos caminhos enfim se cruzavam.


Meu ano de formatura na Canada’s National Ballet School ou ‘NBS’ havia sido bem difícil. Focara demais em provas e tarefas acadêmicas e não havia me preocupado o suficiente em pesquisar e atender à audições de balé pois tinha forte esperança de entrar na National Ballet of Canada, companhia afiliada a minha escola. Todo novembro, a 'NBOC' oferecia uma audição aberta, era o evento do ano para os pré-graduados. Todos meus colegas de sala, ou a grande maioria, estavam obstinados a conseguir um contrato, e foi um choque descobrirmos que apenas três de nós - um menino e duas meninas - haviam sido contratados, e eu não fora um deles.

 

‘Você tem potencial,’ me disseram, ‘mas sua estatura é baixa e não se encaixa no nosso corpo de baile.’


Jamais imaginei que isso fosse acontecer e fiquei extremamente chateada, mesmo sabendo que esta nunca havia sido a companhia dos meus sonhos. Passara os últimos três anos em Toronto assistindo aos seus espetáculos em viagens escolares e tendo seus bailarinos profissionais como referência. Isso havia me influenciado a ponto de esquecer do meu propósito: construir uma carreira de bailarina na Europa. Entre esta e poucas outras tentativas frustradas, cheguei ao fim do Grade 12 desanimada e sem perspectiva de trabalho, além de estar me recuperando de uma fratura no pé.


Há tanta pressão e receio quando você se forma, tanta insegurança e incerteza em relação ao seu futuro, muita inveja e competição entre os colegas. A menos que seja um dos sortudos que recebe uma proposta de contrato logo de cara ou que esteja em uma escola profissionalizante dessas onde diretores assistem às aulas e ensaios para oferecer vagas em suas companhias, você terá que fazer muito, senão todo o trabalho, por conta própria. O sucesso tem um preço alto, exige muito esforço e perseverança, e o melhor a fazer é não deixar tudo para a última hora ou largar "nas mãos de Deus" ou da sorte; é sempre bom ter um objetivo e uma estratégia.


Classe de Formandos da NBS - Toronto
Classe de Formandos da NBS - Toronto

Quando a vida nos dá limões, o melhor a fazer é uma limonada e adoçá-la com bastante açúcar! Fiz a escolha que me parecia ser a mais sensata: permanecer na 'NBS' para mais um ano de treinamento. A escola mostrara-se pronta a me acolher e acabara de criar um novo programa para pós-graduados - o Post Secondary Program ou ‘PSP’ (hoje chamado Company Life Program) - onde três das minhas melhores amigas ingressavam. Estávamos todas no mesmo barco, recém-formadas e desempregadas, o que me deixou com a consciência mais tranquila. Além disso, algo mais me prendia a Toronto...


'Rodear-se de pessoas que desejam seu sucesso significa buscar companhias que te impulsionam, inspiram e celebram suas vitórias, valorizando seus sonhos e incentivando seu crescimento, em vez de desanimar ou julgar, criando um ambiente positivo onde você se sente encorajado a evoluir e alcançar seus objetivos, seja no campo emocional ou profissional.'


Iker tinha a minha idade e era mexicano. Estudava no St Andrew's College, um colégio só para meninos perto de Toronto. Eu o conheci numa das noites em que saí com as amigas (devo acrescentar que nunca me vi saideira ou festeira, mas, levada por influências externas e um forte impulso acumulado de rebeldia, fora o ano em que extravasei), mas nosso encontro não foi assim tão por acaso. Minha melhor amiga havia sentado ao lado de um melhor amigo dele que também estudava no St Andrews, em um voo do Mexico a Toronto. Os dois trocaram telefones e planejaram um encontro dos ‘latinos estudiosos’ e das bailarinas. Em uma boate no centro da cidade, dançamos e conversamos a noite toda e nunca me diverti tanto. Algumas semanas depois, já me via apaixonada.


O esporte era considerado parte essencial da vida e da cultura em St Andrew's, e apesar de ser um pouco mais alto do que eu e não ter um porte atlético, Iker era o capitão e o melhor jogador do time de futebol, além de treinar squash e ser premiado por excelente desempenho acadêmico. Também era virginiano, perfeccionista e dedicado. Tínhamos muitas coisas em comum: dois estrangeiros com o mesmo senso de responsabilidade e propósito, vivendo longe de casa. Durante a semana, nos dedicávamos ao máximo e mal falávamos ao telefone para que nos fins de semana pudéssemos relaxar e aproveitar a companhia um do outro. Ele foi meu primeiro namorado "de verdade" e eu frequentemente me via dividida entre seguir o sonho de uma vida na Europa e me despedir dele.



Embora não tenha adquirido experiência profissional nem salário para pagar as contas, o 'PSP' me ofereceu a oportunidade de sentir a intensidade e o rigor da vida em uma companhia de dança em um ambiente acolhedor. Ganhei mais liberdade, maturidade e um gostinho de como seria uma carreira no balé, treinando e ensaiando de seis a oito horas por dia. O mais importante foi entender que não podia dar o tiro em um só alvo, e sim participar de várias audições, criar o máximo de oportunidades que aumentassem minhas chances de conseguir um emprego, em qualquer lugar, contanto que me aproximasse ao meu sonho.


Compilei uma lista de companhias inglesas e possíveis audições que faria em janeiro/fevereiro, época em que as companhias geralmente procuram por bailarinos. Tinha forte preferência pelo Royal Ballet, mas não podia descartar as demais. Enviei cartas e e-mails, currículos e fotos, escrevi aos diretores e assistentes de diretores e esperei ansiosamente por respostas. Para a maioria, teria que ser convidada a participar de uma audição particular, ou seja, fazer aula com a companhia. A única a oferecer uma audição aberta era o Northern Ballet Theatre, companhia de balé sediada em Leeds. Mesmo assim arrisquei buscar por uma audição particular, pois assim conheceria o perfil da companhia e suas instalações no norte da Inglaterra.


Fui muito afortunada em poder contar com a assistência da direção e professores da 'NBS' que conheciam essas companhias inglesas ou tinham conexões com seus diretores, que me ajudaram na tarefa quase impossível de conseguir abertura para uma audição particular. Viria a perceber que não é fácil conseguir nada sozinha, que uma rede de apoio e bons contatos é extremamente importante no mundo da dança. Se conhecermos alguém que conheça alguém que possa nos receber no dia de audição, ajudar em coisas práticas como mostrar o camarim, o bebedouro e toilette e nos apresentar ao professor... ajuda muito!!! Contar com a gentileza de "estranhos" nesses momentos faz toda a diferença, nos faz sentir acolhidos e acalma nossos nervos.



'Esteja bem preparado para dar certo! O sucesso não é apenas sorte, mas o resultado de preparo contínuo, planejamento estratégico, foco em seus objetivos e a construção ativa de conhecimento e habilidades, transformando oportunidades em realidade através de esforço e dedicação.'


Assim que chegamos ao seu apartamento, Tara me deixou a vontade. Saí as pressas para me familiarizar com o bairro. Para que lado seria Covent Garden? Onde é que ficaria o Piazza e o Royal Opera House? Apesar de perdida, foi amor à primeira vista. Adorei a cidade e conseguia me enxergar vivendo ali, respirando aquele ar cheio de cultura. No fim da tarde, sentei-me em um Starbucks em frente ao teatro e, com um café quentinho nas mãos, esperei por Sorella.


Como explicar quem é Sorella Englund? Existem pessoas que entram em nossas vidas para nos mostrarem aquilo que temos de mais valioso, que nos inspiram de tal maneira que tudo parece ser possível. Fora minha professora de drama and expression na escola, além de ser uma artista incrível. Naquele momento remontava uma versão de La Sylphide para o Royal Ballet, e se não fosse por ela, eu nunca teria pisado ali. Ao vê-la caminhar em minha direção, seus olhinhos azuis brilhando e braços abertos buscando um forte abraço, já me senti mais segura e confortada. A semana seria longa e minha primeira audição logo a mais importante.



Na manhã seguinte, tentava explicar ao senhor mal-humorado na entrada dos artistas, que me lançava um olhar de desaprovação do tipo "Você poderia sair da frente para que eu possa deixar essas pessoas entrarem?", que eu era convidada e tinha uma audição marcada. E, enquanto isso, quem aparece? Ninguém menos que a diretora da companhia, a Sra. Monica Mason... Nossa! Justo ela?! pensei, mas foi uma boa maneira de quebrar o gelo. Me apresentei brevemente e ela foi muito gentil, logo me puxando para dentro.


Estava tão emocionada na primeira aula que mal parava em cima das pernas de tão bambas, não conseguia controlar o nervosismo. De um lado avisto Carlos Acosta… do outro, Alina Cojocaru. Queria me esconder no fundo da sala e contemplar aqueles ídolos que tanto admirava nas revistas de dança. Quando entra a Sra. Monica, percebo que não só meu coração acelera mas que a atmosfera na sala muda instantaneamente. Ela observou os últimos exercícios no centro e, após me dar algumas correções, acenou com um "Até amanhã, querida".


Estar dentro da Ópera House foi a realização de um sonho tão grande que desejei nem saber mais se receberia um contrato ou não. Não queria estragar o momento. À tarde, assisti a um ensaio de La Sylphide com Alina e outro elenco dançando Nápoles. À noite, sentada na plateia daquele esplêndido teatro, absorvi toda a sua energia e me emocionei com cada balé e cada agradecimento.



No meu segundo dia de aula, Monica observou desde o início da barra até o final do centro, discretamente me chamando para o canto perto do piano.

 

‘Oi, querida. Amanhã você vem de novo, né? Precisamos ter uma conversinha.’


Seu escritório era espaçoso e cheio de retratos antigos, posters de dança e prateleiras com inúmeros livros e prêmios. Foi atenciosa, até me deu dicas de como quebrar melhor minhas pontas para utilizar o metatarso, o que é muito mais do que receber um simples NÃO dos diretores, mas infelizmente não me ofereceu emprego. Explicou que todos foram oferecidos aos alunos da escola.


Foi bem decepcionante, mas no fundo eu já esperava por isso. Não me sentira a vontade ali, senti não pertencer àquele lugar. Não tive arrependimento algum, apenas achei que poderia ter me saído melhor se tivesse feito outras audições particulares antes e me famirializado com aquela situação, mas ao menos fizera o melhor que podia naquelas circunstâncias. Apesar do triste desfecho, me via extremamente grata pela oportunidade e consideração.



As circunstâncias mudam com o tempo e são apenas o nosso ponto de partida. Controlar o nervosismo e as expectativas é uma tarefa difícil, pois não sabemos como nos comportar até nos depararmos com aquele ambiente de pura adrenalina e medo, onde todos nos encaram de cima a baixo como nos "julgando". Nem sabemos onde nos posicionar por receio de passar por cima de alguém! Mas quanto mais preparados estivermos, física e mentalmente, mais calmos ficamos.


“O fato de eu fazer tudo que estiver ao meu alcance não significa que dará certo. No entanto, se eu me empenhar para que algo aconteça, se eu agir de forma decente, se eu o fizer de modo inteiro, pode até não dar certo, mas eu saberei que não deixei de exercer o meu protagonismo para que aquilo se tornasse realidade.”


Segui em frente, deixando para trás tanto a situação quanto o apartamento da Tara, passando a me hospedar em hotéis baratos e na casa de outros conhecidos e determinada na minha busca por um contrato de trabalho. O próximo passo seria a audição particular para o Northern Ballet Theatre, mas no dia em que viajaria para Leeds, uma tempestade devastadora atingiu o norte da ilha, matando treze pessoas e afetando todo o sistema ferroviário. Que tragédia! Meu plano B era comparecer à audição aberta, que aconteceria em Fulham em alguns dias.


Recebida pelos colegas Lucas Lima e Erico Montes.
Recebida pelos colegas Lucas Lima e Erico Montes.

A audição durou 6 horas. Após uma aula completa que incluia exercícios na barra, centro e pontas, seis das cinquenta e três bailarinas permanecerem. Os quinze finalistas foram levados à menor sala da English National Ballet School para aprender trechos do repertório da companhia e, em poucos minutos, apresentá-los à equipe do Northern Ballet, que não buscava apenas por pessoas fisicamente aptas; queriam bailarinos inteligentes, atentos aos detalhes, ágeis e musicais.

 

'Se eu tivesse quinze contratos, ofereceria todos', disse o diretor, 'mas infelizmente não tenho. Preciso de algum tempo, pelo menos algumas semanas, para decidir.' David se despediu de nós com um sincero agradecimento e disse que entraria em contato.


Mesmo com toda a pressão e nervosismo da audição, me sentia ótima. Saí de lá em estado de euforia e empolgação. Pude ser eu mesma, e isso me fez sentir muito bem! Mas pior do que não conseguir um contrato seria voltar para Toronto de mãos vazias e encarar meus amigos e professores. Podia até imaginar a minha vergonha e a cara de decepção deles. De alguma forma, eu tinha que conseguir!


Num impulso frenético, enviei um e-mail ao David avisando que conseguiria ir a Leeds na semana seguinte. Comprei uma passagem de ônibus e saí correndo atrás do que poderia ser meu. Queria demonstrar interesse e disposição para superar qualquer obstáculo; nem mesmo o clima tempestuoso da Inglaterra poderia me deter! Depois de uma aula leve e divertida com a companhia em West Park, escrevi no meu diário:


“Hoje tive a melhor aula de todas. A partir de agora, quero estar na 'NBT' e acho que tenho mesmo uma chance aqui, tenho uma pequena esperança. Leeds é uma cidade agradável, me senti muito bem-vinda na companhia, as pessoas me notaram e vieram conversar comigo. Estou muito feliz!”



Ao retornar a Londres fiz audição no English National Ballet, e ao longo dessa aventura em terras inglesas que culminou, algumas semanas depois, com uma oferta de trabalho no corpo de baile do Northern Ballet, uma pergunta não me saía da cabeça. Será que tinha nascido mesmo para ser bailarina? Ou será tudo não passara de um grande engano? Como saber se somos bons o suficiente, se temos tudo aquilo que precisamos para construir a carreira que tanto queremos?


A dúvida é importante pois abre espaço para crescermos, e a verdade é que nunca encontraremos a resposta, até que um belo dia, mergulhados lá no fundo do nosso eu interior, encontramos amor próprio e descobrimos nosso valor.  Independente da opinião e aprovação dos outros, percebemos o quanto temos a oferecer. Podemos não ter o tipo físico perfeito, linhas perfeitas, altura perfeita... mas temos alma, temos musicalidade, inteligência, sensibilidade, carisma, temos AMOR pelo que fazemos e FORÇA DE VONTADE.


“O esforço sozinho não nos garante o sucesso, mas a ausência de esforço é quase sempre garantia de insucesso.” Mario Sergio Cortella


Nem tudo está sob nosso controle, dependemos também de circunstâncias externas e de sincronicidade, mas a força interior nos levará ao alcance do que queremos. Ao identificar nossas limitações e refletir sobre o que nos faltou, podemos criar melhores condições de empenho. O importante é fazer o que está ao nosso alcance no momento presente, mesmo em condições desfavoráveis. É sobre correr atrás, buscar, persistir, até que tudo se encaixe bem.


Você saberá quando se encontrar no lugar certo, na hora certa.


Royal Opera House 2021
Royal Opera House 2021
 
 
 

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