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Dançar ou não dançar?

  • há 19 horas
  • 6 min de leitura

A vida é feita de escolhas. Algumas podem parecer pequenas, como o que comer no jantar? Onde passar as férias de verão? Mas por mais insignificantes que possam parecer, acredito que todas as nossas escolhas moldarão o caminho que traçamos e consequentemente quem somos. Ao escolher ser bailarina ganhei uma vida de felicidades e realizações, mas tive que abrir mão de muita coisa, ao começar por minha infância...


Na pequena cidade de Atibaia onde vivia, nenhum dos meus colegas de escola sabiam o que era ser bailarina, muito menos que a dança pudesse levar à uma carreira. Assim como na história de O Diário da Princesa onde Mia descobre ser herdeira do trono de um reinado europeu e, de um dia para outro, vira celebridade, a minha história (apesar de não tão dramática) foi parecida. Nunca fui muito popular na escola, mas após ganhar medalha de ouro no YAGP em Nova Iorque, de tímida e meio nerde passei a ser notada e respeitada.



Quando descobriram que ganhei primeiro lugar em uma competição internacional, começaram a me ver com outros olhos, como alguém especial ou ao menos interessante, porém ninguém fazia idéia de como o treinamento do balé podia ser intenso. Treinava todas as tardes, de segunda a sexta, e ficava acordada até altas horas estudando para provas ou terminando algum trabalho até que minha mãe me forçasse a ir para a cama.


'Bel, já são três da manhã! Você tem que acordar cedo, vai dormir!'


Vivia sendo dispensada de projetos, conseguindo extensões ou perdendo atividades em grupo, e tudo por causa da agenda do balé. Perdia a maioria das viagens escolares, faltava em festas de aniversário e nunca tive tempo de ir ao shopping com as amigas, muito menos namorar. Meu primeiro beijo aconteceu aos meus dezesseis anos!


Fins de semana eram preenchidos por ensaios e competições de dança aqui e ali. Mesmo que naquele momento não parecesse ser um sacrifício, cresci me sentindo uma estranha, como se estivesse sido deixada para trás sem saber nada do mundo adolescente.


Para mim, o balé era infinitamente mais importante. Sacrificava meu tempo e minha vida social para me dedicar a dança, e era uma escolha com a qual me sentia feliz. Mas como em qualquer esporte ou atividade de alta performance, chegaria o momento em que teria que decidir me comprometer ou não por completo, algo que determinaria o curso da minha vida.


Para a princesa Mia, sua escolha entre tomar posse do trono que herdara ou renunciar ao título determinaria a sua liberdade, e eu me via em uma situação similar onde uma importante escolha poderia me levar a viver a milhares de distância de casa, em um país frio que não me era nada familiar.


Aos quinze anos, foi exatamente o que fiz: deixei minha família e meu país para me dedicar à carreira na dança. Meu objetivo era ser uma bailarina profissional e esse me parecia ser o melhor caminho, mas se as coisas não dessem certo ou se mudasse de idéia, meus pais apoiavam o meu retorno. Sempre enfatizaram que o mais importante era tentar, e este fator foi essencial.


'Coragem não é ausência de medo, mas sim o julgamento de que alguma outra coisa é mais importante do que o medo. Os corajosos podem não viver para sempre, mas os cautelosos não vivem. De agora em diante, você estará percorrendo a estrada entre quem você pensa que é e quem pode realmente ser. O segredo é permitir-se fazer esta viagem.' - O Diário da Princesa '

Mia e sua avo em O Diário da Princesa, meu filme predileto!
Mia e sua avo em O Diário da Princesa, meu filme predileto!

A maioria dos jovens bailarinos, em algum momento de suas vidas, têm de escolher se desejam continuar na rotina e treinamento intenso de balé ou estudar para obterem "um emprego de verdade". É comum ouvir dizer que o balé não traz futuro. Mas será que toda escolha é definitiva? Acredito que a vida seja mais flexível do que isso, e que talvez o segredo para alcançarmos nossos objetivos seja seguir nossa intuição.


O que teria feito se tivesse optado por não estudar no Canadá? Será que teria me sentido um fracasso? Teria seguido o caminho de minha mãe no ensino da arte? Provavelmente teria cursado uma faculdade, pois sempre gostei de escrever, ao mesmo tempo mantendo o balé por perto e procurando por oportunidades para me aprofundar nele.


Não adianta tentarmos prever o futuro ou planejar o passo a passo de nossa jornada. Ela raramente acontece como imaginamos. Acredito que a vida nos leve por caminhos que nos amadurecem e nos ensinam exatamente aquilo que precisamos aprender, e se nos deixarmos levar sem resistência, logo veremos que tudo faz parte de um plano maior.


Às vezes pode parecer que estamos desistindo de nossos sonhos, perdendo "o foco", quando na realidade nossa fixação por um caminho específico acaba nos prejudicando. Temos que manter a mente aberta e escutar o coração, procurando seguir aquilo que nos dê autoconhecimento, novas experiências, e que nos conecte com o nosso eu interior. A falta de conhecimento próprio pode ser exatamente o que nos impede de realizar nossos maiores desejos.


Ballet Marcia Lago - 2017
Ballet Marcia Lago - 2017
O segredo da mudança é concentrar toda a sua energia não em lutar contra o velho, mas em construir o novo” - Socrates

Se este for o seu momento de estudar, priorizar a família e amigos ou mergulhar em um novo projeto, respire fundo e vai! A inspiração à arte está em todo lugar, e aventurar-nos em águas desconhecidas pode nos trazer muitas surpresas e um caminho que complemente nosso lado artístico e enriqueça nossas vidas.


Não tenha medo de começar algo novo, pois seja lá o que for, isto lhe dará a chance de reavaliar valores e processar acontecimentos sob uma nova perspectiva. Acredito que oportunidades nos são apresentadas no momento em que estamos prontos para elas, e que dizer "SIM" à vida é a única maneira de descobrirmos o nosso verdadeiro propósito.


Se escolhemos dançar, que seja aproveitando cada minuto e com plena consciência de suas exigências. Ao nos libertarmos da pressão constante para obtermos sucesso imediato, podemos tomar melhores decisões e abrir os olhos para o que realmente importa.


Balanchine's Diamonds com Anna Rose O'Sullivan ©
Balanchine's Diamonds com Anna Rose O'Sullivan ©

Ser bailarino significa abraçar um estilo de vida. Não se trata apenas de treinar por seis a oito horas por dia, pois dançar se torna parte da nossa identidade. É como escolhemos viver nossos dias e fazer nossas escolhas, desde o momento em que acordamos até a hora de nos deitarmos. Mantemos uma certa estética e uma vida equilibrada, o que não significa que não possamos sair e nos divertir, mas exige muita autodisciplina e consciência. É uma vida de trabalho e busca constantes por se superar todos os dias.


O ambiente da dança é extremamente competitivo, onde a corrida para chegar ao topo parece ditar tudo o que fazemos: como agimos, o que dizemos, como nos sentimos. Somos tão movidos por nossas ambições que, quando me pego agindo de forma egoísta, me sentindo desconfortável com alguém ou tendo pensamentos negativos sobre meu trabalho, busco me distanciar de tudo isso e encontrar um lugar tranquilo onde possa espairecer.

Vivemos nos comparando com os outros pois é difícil entender que cada um tem a sua própria jornada. Somos todos diferentes, únicos, e o mundo é grande o suficiente para todos. Tento não nutrir sentimentos de inveja ou ingratidão porque sei que bailarinos lutam pelos mesmos objetivos. Todos temos o nosso valor e se algo nos falta, é bom pensar que nossa hora também chegará (provavelmente quando menos esperarmos).


La Bayadere © ROH
La Bayadere © ROH

Escolher o balé significou priorizar minha carreira em detrimento de planos familiares, sacrificar natais e feriados, mas até agora me trouxe enorme alegria e satisfação. Muitas vezes somos rigorosos em nossas escolhas sem perceber que podemos encontrar, em meio a tantos caminhos, algo de grande valor que nos revigore e energize para que continuemos lutando pelos nossos sonhos.

Procuro viver um dia de cada vez, focando no que me parece importante, reavaliando meus padrões e prioridades a cada momento que passa. Desejo me casar, viajar pelo mundo, formar uma família... mas tudo tem seu tempo. Acredito que a felicidade é a verdadeira medida do nosso sucesso, tanto na vida profissional quanto na pessoal.


Revista Atibaia - 2003
Revista Atibaia - 2003


 
 
 

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