O bem-estar dos bailarinos

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Há um mês atrás, fui convidada a colaborar na construção de uma plataforma que pudesse ajudar na saúde mental e física dos bailarinos, e desde então, me deparei com muitas oportunidades para refletir sobre o assunto, sobre a importância de fazermos coisas que nos fazem sentir bem e valorizados, que nos ajudem a superar os obstáculos em nosso trabalho e no dia a dia. Como maio é o "Mês da Saúde Mental", resolvi postar aqui algo inspirado em um blog que escrevi para Counselling for Dancers, na esperança de que desperte a consciência para algo que é tão negligenciado no mundo da dança: nossa saúde e bem-estar.



Lidar com nosso estado emocional é essencial na dança; é o que está por trás de nossa tenacidade, resiliência, nosso nível de desempenho e quão satisfeitos estamos conosco e com o mundo ao nosso redor. Faz parte da natureza humana querermos sempre mais e sermos focados no trabalho, especialmente quando se é perfeccionista, mas acho que no balé, certos traços de nossa personalidade são realçados. Nos deixamos levar por uma paixão que facilmente mexe com nossas emoções; com cada espetáculo perdido, cada audição 'falhada' e cada elenco que surge onde nossos nomes não aparecem vem uma onda de decepção que parte nosso coração em pedaços. Construímos expectativas e é como se nossas vidas dependessem disso.



Ao longo da minha carreira, eu me senti culpada por muitos resultados que estavam fora do meu controle e que me levaram a acreditar que não era boa o suficiente, mas minha jornada profissional (e espiritual) me ensinou que a confiança - em nós mesmos e em nossas habilidades - talvez seja o fator mais importante para alcançarmos nossos objetivos e levarmos uma vida feliz. Em vez de me decepcionar, comecei a ver cada resultado como uma experiência de aprendizado e cada papel, por menor que fosse, como uma oportunidade de desenvolver minha arte, acreditando que coisas maiores viriam quando eu estivesse pronta para elas.


Sonatina © Andrej Uspenski

Sempre subestimei o quão importante é termos pausas adequadas, dormirmos e comermos bem, e priorizar nossa saúde em geral. Desde que entrei no Royal Ballet e vivenciei o que é ter uma agenda cheinha de ensaios e apresentações, isso tornou-se essencial para mim. Preciso lidar com todas essas questões e encontrar maneiras de me recuperar e energizar. Meu corpo cansado simplesmente não responde a uma mente ansiosa; uma coisa leva a outra e começo a perder de vista quem sou e para que estou realmente me esforçando. Começo a questionar minhas habilidades e o propósito de trabalhar tanto,para onde estará me levando?


Nós bailarinos somos movidos e encorajados pelo desejo de alcançar o nosso potencial e dar o nosso melhor, sendo determinados e trabalhadores, mas esse impulso e essa pressão constantes podem nos deixar física e mentalmente esgotados. Normalmente volto de um feriado me sentindo revigorada e inspirada para trabalhar ainda mais duro, e vejo que somente precisava de um bom descanso e um pouco de espaço. Sair para tomar um café, ler um bom livro ou conversar com um amigo durante o almoço nas temporadas difíceis pode levantar meu ânimo instantaneamente. Tento fazer pequenas coisas durante o dia que me acalmam e ajudam a colocar as coisas em perspectiva.



Encontrar equilíbrio entre vida pessoal e profissional tornou-se importante para mim, mas é bem difícil quando nossas agendas estão sempre lotadas e quando somos levados a acreditar que não se chegará a lugar nenhum sem muuuuuuito trabalho. Minha mãe disse outro dia que falo de equilíbrio no trabalho como se nunca tivesse feito aulas de balé nos fins de semana livres, nunca fizesse exercícios nas férias ou fosse à academia nas horas vagas. Eu faço sim todas essas coisas. A dedicação é meu mantra, sempre foi.


Não podemos mudar quem somos, mas podemos aprender a desenvolver habilidades para navegar na vida com mais liberdade e reconhecer certos padrões em nosso comportamento que são prejudiciais à nossa saúde. Acho quase impossível viver despreocupada com as exigências do meu trabalho, mas há momentos em que posso (e devo) me afastar. Aprendi a reconhecer quando preciso relaxar e me descontrair antes que a balança se incline demais para um lado. Os sinais aparecem aos poucos, perco o entusiasmo e alegria no trabalho, fico mal-humorada e estressada, pareço (e me sinto) exausta.



O que me ajudou muito a manter a mente aberta e a não perder de vista valores importantes - saúde mental, relacionamentos, espiritualidade, auto-estima, e a conexão com o mundo lá fora - foi buscar outros interesses. Vivemos em constante medo do que o futuro nos reserva, sabendo muito bem que nossa carreira é curta, mas muitas vezes estamos tão absortos em nossa profissão que desconsideramos outros aspectos de nosso ser, outros caminhos que poderiam ser nutridos e perseguidos. Sempre adorei ler e escrever e não consigo viver sem meus livros. Há quatro anos, finalmente decidi começar a estudar Literatura Inglesa e Redação Criativa na Open University. Estou terminando meu quarto ano (com mais dois pela frente) e amando a experiência.


Estudar enriqueceu minha vida de muitas maneiras, mas também foi uma boa distração de toda a ansiedade e estresse da vida no balé. Também descobri, em meio a essa pandemia, um hobby valioso que me dá grande prazer e um propósito totalmente novo: este blog. Isso me fez apreciar ainda mais a dança e tudo o que ela me ensinou sobre a vida e sobre mim mesma.


Dançar significa abraçar um estilo de vida que nos traz grande alegria e satisfação, mas que não nos pede para colocar em risco nossa saúde mental e bem-estar; pelo contrário, nossa carreira é sustentada por nossos valores, amizades, e experiências de vida. Cuidar deles nos permite fazer nosso trabalho com o melhor de nossas habilidades.


A verdade é que quanto mais feliz me sinto por dentro mais motivada e confiante estou no trabalho, mais prazer sinto ao dançar e melhor o faço.


Comemorando a noite de abertura de La Bayadere, finalmente podendo respirar e valorizar nossos esforços.
'Se você se sente bem consigo mesmo e acredita que merece ser feliz, você atrairá essas coisas em sua vida.'

A maioria de nós não nasceu pronto para enfrentar tantos desafios e prosperar nessa profissão, e ter uma mente forte é ainda mais importante do que ter as melhores qualidades físicas do mundo, então cabe a cada um buscar evoluir, procurar ajuda e aconselhamento. Livrar-se da conversa interna negativa e substituí-la por afirmações positivas teve um grande impacto em minha vida, assim como a meditação.


Pode-se não acreditar na lei da atração, mas podemos ter certeza de que, ao elevar nosso senso de autoestima e cuidar de nossa saúde mental, naturalmente interpretamos as coisas de uma maneira mais positiva; somos mais gentis conosco e mais equipados para ultrapassar os obstáculos e decepções que a vida nos lança.


Que cada momento de dança e cada ação de nossos dias possa fazer o bem ao nosso corpo, mente e alma.


Sonatina © Andrej Uspenski


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