top of page

Dança & maternidade: O começo de uma nova vida

  • Foto do escritor: Isabella Gasparini
    Isabella Gasparini
  • 9 de jan.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 10 de jan.

Era agosto de 2024, meu aniversário se aproximava e eu completava trinta e seis anos. Nada jovenzinha para uma bailarina tão ambiciosa, alguns podiam pensar, mas eu finalmente sentia estar atingindo meu auge na dança. Porém, algo perturbador entrou logo em evidência quando, um belo dia, conversando com minha mãe, ela interrompeu meus planos de carreira com uma sutil pergunta:


“Bel, você já pensou em congelar seus óvulos?”


“Hã?!”


De onde vinha isso? Na época, tudo me pareceu um pouco precipitado. Por que eu deveria estar considerando isso? Andava tão focada em minha carreira que não havia pensado muito sobre a maternidade, não porque não quisesse filhos, mas por não conseguir imaginar como as exigências e expectativas exaustivas de ser uma bailarina profissional me permitiriam ser mãe.


Tentei ignorar a pergunta dela, mas, como sempre acontece quando minha mãe levanta um assunto desconfortável, me obrigando a enxergar além do meu próprio nariz, a idéia ficou martelando e martelando em minha cabeça.


© Andrej Uspenski
© Andrej Uspenski

Mas ela não foi a única a agitar as águas. Eu estava num relacionamento sério há muito tempo, e meu então namorado, que nunca tem certeza de nada (demorara dez anos para me pedir em casamento), resolveu me confessar que queria muito ser pai um dia. Refleti sobre isso um instante e pensei... Que pai maravilhoso ele seria.


Nunca encarei minha idade, ou a idade de qualquer bailarina/o, como um problema. Senti-me com mais energia do que nunca quando cheguei aos meus trinta e poucos anos, e a cada ano que passa, sinto me tornar melhor bailarina, descubro novas habilidades técnicas, danço mais confiante e madura. Tudo o que mais queria era continuar dançando mais e mais, mas meu relógio, biologicamente falando, estava apressado.


Alice in Wonderland © Uspenski
Alice in Wonderland © Uspenski

Quando me perguntavam se eu queria um bebê, minha resposta sempre foi um "Acho que sim" duvidoso. Algumas pessoas possuem um instinto maternal a vida toda, mas acho que nunca senti esse desejo tão a flor da pele. Adorava brincar de boneca quando criança, dar mamadeira para elas dormirem, carregar o carrinho de bebê por aí, mas quando fiz onze anos, o balé tomou conta de tudo.


Desde então, tenho me dedicado à dança, o que não significa que eu não tenha vivido romances e a aventuras, mas meu verdadeiro amor sempre foi o balé e sacrifiquei muitas coisas por ele. Será que estaria disposta a sacrificar ter minha própria família também?


Mesmo com toda a incerteza sobre ser mãe, eu queria saber se precisava me apressar, tomar uma decisão de uma vez por todas. A fertilização in vitro poderia me dar mais tempo para aproveitar minha carreira, mas essa idéia nunca me atraiu, e meu parceiro também não a recebeu bem. Por isso, para nossa tranquilidade, busquei entender o meu ciclo menstrual e saber da minha fertilidade.


E por incrível que pareça, um ano inteiro se passou desde que descobri, por meio de um exame de sangue para o hormônio antimülleriano (AMH), que minha reserva ovariana era baixa, ou pelo menos mais baixa do que deveria ser para alguém da minha idade. Eu não tinha tanto tempo assim, mas ainda não conseguia me comprometer a engravidar porque sempre havia algo de importante e excitante que esperava fazer no trabalho, fosse dançar um novo papel, convites para galas no exterior ou finalmente ter minha chance em um papel principal no palco do Royal Opera House!


Estreia em Alice, June 2025
Estreia em Alice, June 2025

Durante toda uma temporada, por mais gratificante que tenha sido, eu me convenci de que tudo bem em adiar a gravidez, que eu não podia perder oportunidades tão incríveis e que simplesmente não era o momento certo. Esperava que um segundo exame de AMH em agosto de 2025, durante as férias no Brasil, pudesse me trazer resultados mais promissores, mas eu não estava ficando nada mais jovem e, é claro, enfrentei outra decepção. Desta vez, o impacto foi forte, uma percepçação devastadora de que eu não tinha necessariamente o tempo que pensava ter, ou o luxo de esperar mais tempo. Já que, talvez, até já fosse tarde demais.


O verão chegou e passou, mais um aniversário também, e uma semana antes do nosso tão esperado casamento, meu parceiro e eu decidimos que chegara a hora. Não importa o que fosse, íamos tentar ter esse bebê e deixar as coisas fluirem nas mãos do destino.



Quem pode afirmar que eu já não estava grávida quando entrei na igreja? Acho que nunca saberemos. Algumas semanas depois, com dois testes de gravidez feitos na mão, olhei para o Kevin e ele soube.


"Como isso é possível?", disse ele. "Vou processar aquela médica!"


Ele ficou paralisado por um tempo, murmurando (em tom de brincadeira) que eu o havia enganado, enquanto eu só conseguia pensar... E a nossa lua de mel?? A gravidez naquele momento foi algo totalmente inesperado, mas a verdade é que ambos sabíamos da nossa sorte e nos sentimos completamente emocionados.


Acho que, no fim das contas, não se trata apenas de quantidade, e sim qualidade! Meus óvulos estão em perfeita saúde e eu havia os suplementado com vitaminas e ácido fólico nos últimos cinco meses para maximizar nossas chances. Na manhã em que acordei com os seios muito doloridos, já percebi que havia algo diferente. Mesmo sabendo das nossas chances, o resultado positivo não havia me surpreendido tanto. Fiquei feliz e aliviada!


Bem lá no fundo, parte de mim devia saber que eu queria construir uma família, mesmo sendo difícil imaginar as rotinas de balé e bebê juntas, mas se não fosse pelo Kevin e pela minha certeza absoluta de que ele seria um ótimo pai e companheiro para a vida toda, de que sempre teríamos um ao outro, não sei se teria tido coragem suficiente para encarar isso.



As bailarinas raramente falam sobre o quão difícil pode ser a decisão de ter um bebê e voltar a dançar quando a carreira é tão curta. Foi a decisão mais difícil que já tomei na vida, e já tomei muitas decisões importantes. É difícil abrir mão de como as coisas sempre foram, e ainda mais difícil me livrar da sensação de estar desistindo das minhas ambições de carreira, dos meus sonhos de infância.


Mais do que o desafio físico, é a mudança de identidade e a adaptação a uma nova vida que assusta, o fato de pensar que jamais você voltará a se sentir a mesma. Dizem que na maternidade, perde-se uma parte de si, e certamente é essa a minha sensação, de estar dizendo adeus a Isabella Gasparini que conheço.


Cresci acreditando que, se eu não pudesse me dedicar totalmente ao balé, trabalhar com imensa dedicação e sacrifício, então não valeria a pena fazê-lo. Talvez o que mais me assuste seja como conciliar a rotina de trabalho com a maternidade, mas, como minha mãe sempre diz, o importante é encontrar o equilíbrio. Além disso, meu amor pelo balé é infinito, mas essa carreira não durará para sempre. E depois?


Danses Concertantes © Andrej Uspenski
Danses Concertantes © Andrej Uspenski

A carreira profissional no balé é exigente em todas as circunstâncias, mas meu trabalho com o Royal Ballet tem sido mais desafiador do que qualquer outro que já vivi. Ele me deu a certeza do que eu mais queria e esperava alcançar, mas também trouxe uma montanha-russa de emoções. Nesse ambiente intenso e altamente competitivo, muitas vezes perdemos a perspectiva do que é importante porque estamos super determinados a obter sucesso e reconhecimento.


A maternidade já me oferece uma visão mais ampla da vida, algo que me impactará dentro e fora do palco. Desde o momento em que descobri que estava grávida, soube que nada seria como antes, que eu nunca mais colocaria a mim mesma ou minha carreira em primeiro lugar. Agora procuro ver a maternidade não como uma entidade completamente separada da minha vida de bailarina, mas como algo que a enriquecerá, e isso é muito encorajador.


Rosaura em Like Water for Chocolate
Rosaura em Like Water for Chocolate

Muitas bailarinas continuam dançando durante a gravidez, exibindo suas barrigas enormes em sala de aula, mas minha realidade tem sido bem diferente. Após doze semanas de enjoo e cansaço tentei voltar a dançar, apenas para descobrir que este segundo trimestre traria mais algumas surpresas, e desde então tenho estado em casa, repousando. Agora na vigésima semana, meu único desejo é que consigamos passar pelos meses restantes sem mais sustos.


É difícil não comparar a nossa experiência com a de outras, e não pensar em quanta falta sinto do meu trabalho e do ballet, mas a gravidez já se tornou uma lição de adaptabilidade e desapego, de aceitar que nem tudo sairá como planejado.


Com minha mãe em minha ultima apresentação
Com minha mãe em minha ultima apresentação

Não poderia estar mais grata pelas escolhas que fiz e pela oportunidade de me tornar mãe, mas isso me fez pensar... se os óvulos das mulheres fossem infinitos e permanecêssemos férteis por muito mais tempo, será que mais bailarinas optariam por ter filhos?


Se não sentíssemos a pressão de voltar em forma e reconquistar nosso lugar em um campo tão competitivo, se não sentíssemos estar numa corrida contra o tempo e aproximando o fim de nossas carreiras aos trinta e cinco anos, será que a perspectiva de ter um filho seria menos assustadora, mais atingível?


Sei que ainda tenho muito para oferecer na dança e darei o meu melhor, como sempre fiz. Mas, por hoje, meu próximo projeto exigirá muito cuidado, responsabilidade e novas habilidades. Algo tão precioso, novo e emocionante está a caminho... dar as boas-vindas à nossa filha neste meu mundo louco da dança.


 
 
 

Comentários


bottom of page