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Youth America Grand Prix

  • há 19 horas
  • 7 min de leitura

Quando menina, os festivais de dança eram o mais próximo que podia chegar de me sentir bailarina de verdade, algo fora da rotina diária de aulas e inúmeros ensaios. Era a única maneira de me encontrar cara a cara com um público novo, adquirir experiência de palco e aprender as nuances físicas e psicológicas de como ser uma artista.


Meus dias de preparação e correria entre um festival e outro já ficaram para trás, mas quando olho nos olhos dos jovens bailarinos e ouço suas perguntas e preocupações, consigo me imaginar de volta aos meus doze anos, revivendo aquela mesma ansiedade. O que será que a próxima competição me traria? Mais uma medalha? Ou uma frustrante nota baixa?


Para mim, tudo isso culminou em um único evento importantíssimo que ainda acontece até os dias de hoje: o YOUTH AMERICA GRAND PRIX.


YAGP 2003 - NY
YAGP 2003 - NY

Tinha quatorze anos quando minha mãe me levou a Nova York para participar da final do 'YAGP', um evento internacional com centenas de bailarinos de todas as nacionalidades e origens, bem distante dos festivais de que estava acostumada. Imediatamente senti uma energia e entusiasmo diferentes por todos os lados, mal conseguia processar minhas emoções e o peso de tudo aquilo.


Naquele ano de 2003, o YAGP ainda era uma competição relativamente nova, sendo moldada e aperfeiçoada ao renomado evento que é hoje. Uma coisa que pude perceber com bastante clareza durante a maratona de aulas, ensaios e apresentações foi a paixão e o comprometimento do YAGP em reunir artistas promissores e dá-los a oportunidade de se conhecerem, aprenderem juntos e crescerem.



O que diferencia uma competição como o YAGP é sua dedicação em oferecer aos competidores oportunidades para cursarem as melhores escolas de balé do mundo e construirem uma base sólida para a carreira profissional, de serem descobertos por alguém influente que possa lhes oferecer a chance de estudarem em uma escola profissionalizante no exterior. Embora nunca fácil, esta é a maneira mais direta de ingressarem em uma companhia de balé.


Muitas das escolas vocacionais são afiliadas à companhias profissionais, e muitas vezes seus estudantes têm a oportunidade de se apresentar com a companhia em produções que exigem um elendo grande como em O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes ou A Bela Adormecida, sendo essa uma excelente introdução à vida profissional. Além de ganharem experiência dançando no corpo de baile, isso faz um ótimo diferencial em seu currículo.


Jovens bailarinos costumam depositar suas esperanças e maiores desejos em vencer as competições, mas receber a medalha não garante nenhum sucesso na carreira profissional. Embora tenha ficado extremamente surpresa e feliz ao ganhar a medalha de ouro em Nova York, meu maior prêmio foram as portas que se abriram a mim por meio dos convites que recebi. Fui premiada com seis bolsas de estudo, optando a ingressar na National Ballet School of Canada ou 'NBS', onde estudei por quatro anos.


Recipientes de bolsas da categoria Junior
Recipientes de bolsas da categoria Junior

Antes de pisar nos palcos do teatro Alice Tully Hall (NY), não tinha noção da magnitude do evento onde me encontrava. Havia sido selecionada para participar da final por meio de uma gravação do Prêmio Cecília Kerche, evento ocorrido na cidade de Oswaldo Cruz e criado pela Stars Dance, uma filmagem que nem sabíamos ter sido enviada aos organizadores do YAGP.


Foi minha primeira (e única) competição no exterior. Tudo o que sabia sobre a viagem, e o que importava acima de tudo, é que estaria representando o Brasil ao lado de cinco bailarinos também selecionados das finais do Prêmio Cecilia Kerche.



O que mais me marcou nesta competição em Nova York foi a quantidade de participantes e o fato de sermos identificados por números. Eu era a 58 - oito sendo meu número da sorte desde então - entre mais de 70 meninas na categoria Júnior, e acredito que hoje o número de competidores seja ainda maior! Logo percebi que não se tratava apenas de apresentarmos uma variação; haveriam workshops, masterclasses, aulas no palco e uma série de coisas que nos expunham aos jurados e garantiam que fôssemos devidamente avaliados, outra grande diferença dos festivais brasileiros da época.


No dia da competição, descobri que o juri era composto por uma banca de diretores de escolas à procura de talentos. Nos primeiros dias me escondia no fundo da sala e rezava para não pagar mico na frente dos outros participantes, mas com o passar do tempo, percebi que isso era bobagem. Se estava lá era porque merecia, mesmo não me achando boa o suficiente. Acreditava que para me destacar, era preciso ter um físico maravilhoso e perfeita técnica, mas nunca imaginei que o que aqueles diretores artísticos pudessem estar observando, principalmente nas aulas, era o nível de atenção, a rapidez com que assimilamos os exercícios, a capacidade de absorver correções, o foco e a disciplina – atributos que fazem de você um excelente aluno (e profissional).


Workshop com Susan Jaffe, ex-bailarina e hoje diretora do American Ballet Theatre
Workshop com Susan Jaffe, ex-bailarina e hoje diretora do American Ballet Theatre

Os workshops e aulas me permitiram mostrar o tipo de pessoa e bailarina que realmente era: sempre curiosa, trabalhadora, conseguindo assimilar detalhes, tendo boa musicalidade... e um pouco medrosa, mas talvez apenas precisasse de um empurrãozinho para me posicionar a frente. Pude também aprender com os melhores profissionais de dança, pessoas que eu admirava como os bailarinos do ABT.

 

O evento contava com uma grande gala de encerramento - Estrelas de hoje encontram as estrelas de amanhã - algo que acontece até hoje. Os jovens têm a oportunidade de assistirem seus ídolos bem de perto, interagir e espelharem-se em profissionais que um dia já foram também competidores, e que construíram grandes carreiras em companhias de prestígio. Na noite de gala há também o Grand Defile, onde todos os competidores dançam juntos e são incentivados a trabalharem coletivamente.


Ensaio do Grand Defile
Ensaio do Grand Defile

Lembro-me do YAGP como um grande intercâmbio cultural onde me senti bem-vinda. Sempre fui tímida e não falava inglês muito bem, o que talvez dificultasse minha socialização, mas meu propósito ali era concentrar-me em fazer o meu melhor. Desviava a atenção da japonesa e sua técnica ameaçadora, pois sabia que o medo e insegurança não me trariam nada de bom. Todos pareciam felizes em estarem ali, abertos a aprender e compartilhar um momento especial, o que foi muito positivo.


A mestra Toshie Kobayashi havia me preparado uma barra de aquecimento, e para me manter concentrada e bem aquecida enquanto esperava minha vez de subir ao palco, eu repassava na cabeça todos os detalhes do meu solo, visualizando uma boa performance. Queria representar bem o meu país e fazer o meu melhor, apenas isso.



O evento nos pedia que apresentássemos uma variação de repertório clássica e um solo "contemporâneo", uma peça livre com música e coreografia de sua escolha, o que no Brasil conhecemos por solo 'neoclássico'. Dancei Raio de Luz, coreografado por Ivonice Satie, que felizmente foi adaptado para o YAGP pois eu tinha dificuldades com as caídas bem contemporâneas de Satie. Meu amigo Paulo Arrais, no entanto, aparece no palco descalço, sentado no chão, rolando e desenrolando-se em um solo brilhante mas não exatamente o que o júri esperava.

 

Após assistir a sua apresentação, os organizadores do evento o chamaram nos bastidores e perguntaram se ele poderia apresentar algo diferente. O júri queria vê-lo saltando e girando, algo que pudesse mostrar o máximo de sua técnica e potencial. Paulo pegou emprestada minha música de Raio de Luz e, junto com sua professora Simone, montou na hora uma nova coreografia. Alguns minutos depois subiu ao palco novamente, saltando, girando e improvisando magnificamente.

 

Eu nunca tinha visto tanta coragem! Isso, para mim, demonstrou como os brasileiros são determinados, e também como o YAGP nos desejava o melhor. Eles deram a Paulo uma segunda chance, sabendo que ele teria perdido a oportunidade de sua vida por causa de um mal-entendido. Paulo recebeu uma bolsa de estudos para a Escola de Ballet da Ópera de Paris.



Também nunca me esqueço da sensação que tive ao dançar Raio de Luz em Nova York. No momento em que entrei no palco, me senti 'iluminada'. Todo o meu nervosismo passou. Para a variação clássica dancei Satanella, de Petipa.


Entre mais de setenta competidores na minha categoria, apenas dezoito foram selecionados para a segunda rodada, e meu número aparecia entre eles.



O último dia da competição havia chegado e ainda nada dos resultados finais. Nossa ansiedade crescia a cada minuto! Fomos instruídos a esperar na entrada do teatro, onde haveriam de anunciar quem estaria dançando em algumas horas na gala de encerramento. Ouvi cinco ou seis números da minha categoria serem chamados, e após dançar Satanella por uma última vez, naquela mesma noite descobri que havia ganho a medalha de ouro.



Muitos bailarinos sonham em receber uma medalha sem perceber que vencer é apenas um bônus! Não é o fator mais importante. Pode até ser um reflexo de quão confiante você se sente naquele momento, o quanto você demonstra ser você mesmo e ter um grande potencial, mas no final das contas, o prêmio mais alto ocorre independentemente de sua classificação: as experiências, memórias e lições aprendidas.

  

As bolsas de estudos são portas de entrada para uma carreira profissional, mas para adquirí-las é importante mostrar que possui todos os requisitos necessários, não somente físico mas também mental, para se tornar bom bailarino. Demonstrar resistência e determinação, vontade própria e valor à arte, pois isso definitivamente você precisará ao longo de sua carreira - muito amor e resiliência.



O Youth America Grand Prix vem ajudando gerações e gerações de jovens talentos a conquistarem um espaço no mundo profissional da dança. Fui uma das primeiras brasileiras a terem o privilégio de participar das finais do YAGP em Nova York. Naquela época, pisávamos em território desconhecido, mas agora o evento se tornou familiar e muito querido entre os jovens bailarinos do Brasil.

 

Fui recebida em casa de braços abertos e em ritmo de festa, sentindo o amor e apoio de amigos e da familia. Essa é a melhor parte! Sentir a sensação de 'missão cumprida', sabendo que a experiência significa muito mais do que isso, algo que nunca mais esqueceremos. Senti-me ainda mais feliz ao reencontrar a dona Toshie, que havia me preparado e torcido por mim de longe.

 

‘Seu futuro é promissor, Isabella,' ela disse, 'mas agora, o trabalho começa de verdade.’





 
 
 

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