A jornada

Acordei na manhã de sábado me sentindo bem otimista. De bolsa, máscara, e álcool gel nas mãos, corri para Covent Garden para uma última aula de balé. Chegara o fim de semana, mas ainda precisava fazer mesmo que fosse apenas uma leve barra que acordasse meus músculos. Eu normalmente não gosto de ter dois dias de folga antes do ensaio de palco de uma segunda-feira. Afinal, seria o início de uma semana importante!

Na verdade, o Royal Ballet estaria se apresentando naquele sábado. Eu faria meu primeiro espetáculo como Clara em O Quebra-Nozes reworked, mas só conseguimos um total de quatro apresentações antes que as regras e regulamentos da pandemia mudassem aqui em Londres. Infelizmente, os teatros haviam sido fechados novamente. A maioria dos bailarinos só conseguiu apresentar um de seus papéis, alguns nem mesmo subiram ao palco.


Fiz quatro shows de boneca Columbina no primeiro ato e Mirlitons. Pela primeira vez na minha carreira, não fui um floco de neve, e devo dizer que senti falta. Ser solista da companhia significa que você não está envolvida nos números de conjunto tanto quanto o corpo de baile. Suponho que se estivéssemos fazendo a versão original, com vinte e tantos flocos de neve, provavelmente eu teria estado entre eles.


Bonecos Columbine em 2018 (com parceiro Kevin)

Ficamos muito abalados com o cancelamento de tantas apresentações, tristes pelas pessoas que haviam ensaiado tanto e por aqueles que haviam comprado ingressos, especialmente por aqueles que comparecem ao Quebra-Nozes religiosamente, ano após ano. Mas parece que estamos tendo que criar novos hábitos e nos acostumar com mudanças drásticas. Nessas circunstâncias imprevistas, tudo o que podemos fazer é seguir em frente, mesmo que as regras não façam muito sentido. Com toda essa frustração e notícias desanimadoras, agarrei-me à certeza de que ainda tínhamos UMA apresentação a fazer, e estava empenhada em fazê-la valer por todas as outras que havíamos perdido. Mesmo que nosso auditório agora estivesse vazio, eu sabia que muitas pessoas estariam assistindo a transmissão ao vivo de O Quebra-Nozes de suas casas e esperavam por isso tanto quanto eu.


Andava eu por Covent Garden a fazer compras de última hora e não conseguia entender por que a Royal Opera House, oferecendo um evento socialmente distanciado, havia sido fechada, enquanto inúmeras pessoas se esbarravam nas ruas e lojas. Teria me sentado a mesa e saboreado uma boa xícara de flat white como recompensa por ter perseverado na aula do Sasha daquele dia, mas Londres se enquadrava Nível 3 do sistema de lockdown, onde restaurantes e cafés seguiam apenas para take-away. Eu e Kevin compramos um para viagem no Cafe Monmouth, nosso favorito, e seguimos ao Neals Yard Dairy, onde compramos saborosos queijos, geleias e biscoitos para a nossa tão esperada véspera de Natal.



Ao chegar em casa, fiz uma aula de ioga (gravada de quando fazíamos exercícios em nossa sala de estar). Uau, como progredimos! pensei. Desde nossos primeiros cinco meses em lockdown, adquiri o hábito de fazer ioga com mais regularidade, pois me ajuda a me sentir grounded, centrada, alongada... algo perfeito para se terminar uma longa semana. Já estava ansiosa para o ensaio de palco de segunda-feira, onde correríamos o balé do começo ao fim antes da gravação de terça-feira.


Com apresentações sendo canceladas, a maioria dos bailarinos daquele elenco ainda não havia se apresentado. Além disso, precisávamos de ensaio e subir ao palco para nos sentirmos “em casa” novamente. Eu ja havia feito Clara no ensaio geral, que funciona como uma apresentação, excelente oportunidade de sentir o palco, praticar trocas rápidas de figurino (a minha quase não aconteceu a tempo) e acostumar-se com focos e luzes de palco. A equipe de filmagem também esteve presente ensaiando seus ângulos e pegadas.


Ensaio Geral de O Quebra Nozes 2020.

Depois da ioga, fui para a cozinha estudar enquanto esperava o Kevin voltar para casa. Meu telefone vibrava sem parar, mas ignorei todas as mensagens do grupo, pois estava concentrada nos estudos e determinada a finalizar uma redação que entregaria em breve. O grupo do WhatsApp dos bailarinos persistia com as mensagens, então resolvi desviar minha atenção do computador por um segundo e descobrir o motivo de tanta agitação, e foi aí que percebi que havia algo de errado.

'Gente, o que está acontecendo??' perguntou uma amiga numa mensagem privada. ‘Quer dizer que não podemos mais ir para o Brasil nestas férias? E não haverá gravação na terça-feira???? '


Meu coração disparou. Londres acabara de entrar no Nível 4, sendo o pior dos quadros, onde regras mais rigorosas seriam implementadas como, por exemplo, não podermos visitar familiares em suas casas, logo a vésperas da noite de Natal! Tudo devido, disseram, a uma nova vertente do vírus que se espalhava rapidamente. Entrávamos em outra fase onde todas as lojas e restaurantes seriam fechados, planos de viagem cancelados ... uma loucura total! Com tudo o que estava acontecendo, eu só conseguia pensar em nosso espetáculo e o que isso significava para o teatro.


Photo @dancersdiary

Chegando em casa, Kevin encontrou sua namorada andando de um lado para o outro na cozinha, estressada e chateada, mas apesar das más notícias vindas do governo, ele ainda acreditava que essas novas regras não afetariam o espetáculo. Esperamos ansiosamente por um pronunciamento da companhia, como sempre acontece em situações como essa onde o quadro muda significativamente. Em muitas ocasiões nos últimos dez meses, os bailarinos esperaram por novas coordenadas, pois não cabe a nós decidir. A equipe artística e executiva do Royal Opera House se reúne e dita qual será o próximo passo, levando em consideração o que é melhor para a saúde e segurança de seus funcionários.


Mas o que mais temíamos aconteceu. Pouco depois do Kevin ter me acalmado, recebemos uma atualização da companhia. Eu estava no telefone com minha mãe e ele apenas olhou para mim com uma cara tristonha de 'sinto muito'. Soube então que eram más notícias, a filmagem havia mesmo sido cancelada. Nem posso dizer o quanto fiquei decepcionada, o quanto esperei por essa oportunidade. Comecei a chorar e abracei o Kevin o mais forte que podia. Ficamos assim por um bom tempo. Eu sabia que era melhor desabafar logo de uma vez. Mesmo lendo tantos livros e escrevendo tanto sobre deixar as coisas fluírem e entender que tudo acontece por um motivo, em momentos como esse, é como se algo explodisse dentro do meu peito. Queria era chorar mesmo e gritar ao universo ... POR QUÊ???????


Gostaria muito que o quadro tivesse sido diferente, mas eu já devia ter entendido que estamos vivendo em tempos difíceis e que as coisas mudam de um dia para o outro. Nossa companhia de balé tinha feito tudo certinho. Fizemos testes de covid semanais, mantivemos distancia na medida do possível, re-coreografamos um balé para torná-lo “seguro” e trabalhamos duro, mas não foi o suficiente. Teríamos feito qualquer coisa para que o espetáculo acontecesse.


Os bailarinos são seres muito apaixonados, às vezes ao ponto de estarem cegos ao que é certo ou sensato. Colocamo-nos em risco o tempo todo, as vezes até em risco de nos machucarmos gravemente, ignorando desconfortos físicos que podem surgir durante ensaios para que possamos alcançar um objetivo. Mas há momentos nessa carreira em que um é forçado a render-se, como quando fraturamos um osso ou um exame mostra um ligamento rompido, ou quando um súbito espasmo nas costas nos deixa travados. Somente quando a dor é insuportável tomamos as medidas necessárias; do contrário, apenas dizemos a nós mesmos para aguentar firme, aconteça o que acontecer.


Vemos elencos sendo alterados no último instante, corações que são partidos por uma oportunidade perdida. Acontece o tempo todo no teatro, e aprendemos a aceitar o destino. Muitas vezes o que nos conforta é relembrarmos uns aos outros:


'Não se trata do produto final, o que importa é o processo.'

Backstage adaptado ao distanciamento social.

Ensaiando com a Rose fairy @maymagri

Dias depois, consegui analisar o quadro geral e reconhecer o quanto havia crescido e aprendido nesse "processo". Quando a indignação e o aborrecimento passam um pouquinho, eu paro de pensar no que poderia ter sido e aceito a realidade. Dançar Clara na transmissão ao vivo teria sido um sonho, uma grande oportunidade de vida, mas isso não queria dizer que não haveria algo emocionante pela frente. O fato de termos sobrevivido e nos adaptado a um novo mundo já foi uma grande conquista. Depois de cinco meses trancados em casa (o mais longo que passei sem academia, estúdio, piscina ou quadra de tênis) consegui voltar à forma sem grandes problemas. Talvez me sentisse ainda mais forte e preparada fisicamente do que nunca, mesmo sem as horas intensas de ensaio e apresentações a que estamos acostumados, o que me provou que poderíamos todos trabalhar melhor com um pouco mais de tempo de recuperação. Isso também me provou (aquela que sempre pensou que três dias de folga do balé me deixaria rígida e fora de forma) que nossos corpos são muito mais adaptáveis ​​do que pensamos.


Além de ser apresentada a um novo parceiro de dança nessas ultimas semanas, havia trabalhado com um novo ensaiador/treinador, Edward Watson. Ed é um ex-primeiro bailarino do Royal Ballet e nosso mais novo répétiteur. Teve uma carreira brilhante, trabalhando com vários coreógrafos e retratando todos dos papéis mais dramáticos. Quando entrei na companhia, senti-me um pouco intimidada por ele, talvez devido à sua posição. Eu o assistia ensaiando Leontes em The Winter's Tale, totalmente maravilhada com seu físico e expressividade. Sua ética de trabalho é o que mais admiro, mas agora pude conhecer seu outro lado profissional, e o reconheço também como um grande mentor.


Ed em The Winters Tale © ROH.

Nós três - eu, meu parceiro Luca, e Ed - nunca tínhamos trabalhado juntos. Começamos do zero, estudando o pas de deux da Clara e seu partner de um novo ângulo. Ed tem excelentes toques ​​para transmitir, desde pequenos detalhes de performance até o que funciona melhor para cada um de nós bailarinos. Ele permite que seja você mesmo sem esperar que se encaixe em um molde, o que lhe dá a certeza de que está mostrando o seu melhor. Todos os dias, Ed me lembrava de pés em dehors, ombros caídos, rosto iluminado .. de pintar um quadro completo. Sempre me senti estranha correndo no palco, e ainda acho que seja uma das coisas mais difíceis de se executar com graciosidade, mas com as dicas de Ed eu finalmente cheguei me sentir um pouco menos descoordenada. Clara tem quilômetros a percorrer neste balé!


A cena da batalha Ato I

Graças à experiência que adquiri fazendo este papel em vezes anteriores e à liberdade que ganhei ao me sentir tecnicamente mais forte, nunca estive tão confiante em minha capacidade de contar essa história. Mas não levo todo o mérito por isso; essa coragem se deu graças a uma combinação de coisas afortunadas que recebi ao longo dessas últimas semanas: a confiança do diretor, um parceiro confiável, um grande treinador, e por fim, a ajuda de uma arma secreta.

Uma ou duas vezes por mês, ajusto meu computador no canto de um estúdio vazio para fazer aulas particulares (via Zoom) com Ursula Hageli, nossa ex-treinadora de reabilitação e professora. Ela mostra os exercícios de sua sala de estar, acompanhada por seus três poodles - Brig, Rachel e Wolfie - que gostam de latir para os esquilos passeando em seu jardim. Ursula se aposentou em agosto, mas sou muito grata de poder ter continuado a trabalhar com ela, mesmo que de longe (como a maioria das coisas hoje em dia). Ela assiste a minha aula de uma grande tela de televisão e corrige cada detalhe. Não sei como consegue! Temos trabalhado na coordenação de pernas e braços, algo que tem me ajudado muito. Normalmente, não dedicamos tanto tempo ao básico da técnica clássica no dia a dia profissional, por isso aprecio muito essas lições. São momentos bastante serenos e meditativos, apesar dos latidos ocasionais, quando estou realmente ciente do que cada parte do meu corpo está fazendo, do fio de cabelo a ponta dos pés.



Meus colegas de classe.
Devemos nos concentrar na jornada, não no destino. Isso sempre nos ajudará a crescer e a valorizar mais as coisas.

Sinto uma afinidade tao grande com a Ursula e amo trabalhar com pessoas em quem tenho total confiança. Isso me passa uma força ainda maior. Lembro dos tempos de menina em que o que mais queria era ser bailarina, tendo aulas particulares com a renomada Toshie Kobayashi. Embora nosso treino fosse mais “intenso” (e fosse bastante tímida e assustada), eu não tinha total consciência do que meu corpo fazia, apenas queria mostrar máximo esforço para que Toshie me aprovasse.


O fato de estar ansiosa por ser a Clara nessa gravação, algo que teria me deixado apavorada antes, me faz pensar que estou cedendo à confiança de que tenho algo único para dar, algo que gostaria de compartilhar com o mundo.


Act I photo @dancersdiary

Alguns dias antes disso tudo acontecer e da gravação ser cancelada, um amigo querido me enviou um poema (seu favorito) de Cavafy, grande poeta grego do século XX. Chamava-se Ítaca.


Quando você partir em busca de Ítaca

reze para que a sua jornada seja longa,

cheia de aventuras, cheia de despertares.

Não tema os monstros da antiguidade…

Você não os encontrará nas suas viagens

se o seus pensamentos forem sublimes e permancerem elevados,

se autênticas paixões comoverem-lhe mente, corpo e espírito.

Você não encontrará monstros ameaçadores

se não carregar dentro da sua alma,

se a sua alma não os colocar diante de você.


(…)

Guarde Ítaca sempre em sua mente.

A sua chegada lá é o seu destino.

Mas de forma alguma apresse a jornada, seja paciente.

É melhor que ela dure muitos anos –

mais tempo do que você mesma possa imaginar.

Para que, afinal, quando você chegar a essa

ilha sagrada, seja uma mulher sábia,

repleta de tudo o que conquistou ao longo do caminho;

não mais esperando Ítaca para obter opulência,

não mais precisando de Ítaca para ficar rica.


Ítaca lhe ofereceu a profunda jornada,

a oportunidade de descobrir a mulher que você sempre foi.

Sem Ítaca como inspiração, você

nunca teria partido em busca da plenitude.



Agora, enfim, havia entendido a mensagem que me veio naquele precioso momento.


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