Rituais do dia-a-dia

Há tantos mistérios que giram em torno da vida de uma bailarina. O que estaria por trás dos bastidores fazendo a magia acontecer no palco? Quantas horas por dia treinamos? Como é nossa rotina? O que comemos? Como nos preparamos para uma apresentação? Essa profissão é diferente de todas as outras, onde não se tem escritório ou computador a sua frente, nenhum cliente ou paciente para atender. É algo enigmático, onde muito do trabalho que fazemos (assim como em outras formas de arte) permanece oculto aos olhos do público. O que apresentamos é apenas o produto final.


O Royal Ballet em Mayerling © ROH

Talvez seja por isso que o World Ballet Day (Dia Mundial do Ballet) se tornou tão popular, pois abre uma janela para o dia-a-dia dos bailarinos dentro de algumas das mais prestigiadas companhias de dança. No entanto, ainda assim é uma visão limitada. Pulamos algumas etapas do processo e apresentamos coisas que estão mais ou menos nos estágios finais de seus ensaios. Bailarinos e professores estão todos comportados. Na verdade existem, de fato, muitas tentativas e erros, falhas e tombos, mesmo para os melhores profissionais.


Se estivéssemos observando um pintor, acredito que primeiro o veríamos fazendo rascunhos e esboços a lápis, linhas sendo desenhadas em uma tela em branco, tintas de diversas cores e espessuras sendo adicionadas ... Se fossemos ainda mais fundo, perguntaríamos a ele o que o inspira a pintar, como ele apura sua técnica, e quais são seus maiores contratempos? O que vemos nos ensaios transmitidos pela internet é como se fosse uma imagem já colorida, nosso trabalho em estágios de refinamento logo antes de subirmos ao palco. O maior esforço acontece nas entrelinhas, todos os dias, e começa na aula de balé!


A companhia em #worldballetday.

Outra noite, estava em um pequeno e charmoso restaurante francês em Marylebone comendo um delicioso fondue de queijo para dois, quando comecei a observar um garçom trabalhando. Falei pro meu namorado 'Nossa .. Ele tem que repetir tudo o que tem no cardápio de sobremesas para cada cliente. Que trabalho repetitivo! ' ao que Kevin responde 'Bem, mas não repetimos as mesmas coisas em aula todos os dias? O que fazemos também não é um pouco repetitivo?’

Ele estava certo. Repetimos sim os mesmos exercícios na barra e centro no início de cada dia de trabalho. Fazemos pequenas variações de pliés, tendus , jetés, rond de jambés, frappés, fondus, adages e grand battement desde que nos conhecemos por bailarinos! No centro, temos novamente os adágios, piruetas, saltos pequenos que gradualmente evoluem para grandes saltos e, se o tempo permitir, uma coda de fouettes e manage. A aula aumenta em dificuldade, energia e velocidade.


Não podemos pular a barra e ir direto ao centro pois cada exercício da barra é feito para nos aquecer para algo especifico, seja um simples pas de bourre ou um grande salto. E o mais importante: é ali na barra que você se posiciona corretamente (dizemos que nos coloca “sobre nossas pernas”) para todos os giros, saltos, e equilíbrios que a dança exige. A aula não é apenas um exercício para o corpo; a mente também está sendo treinada.



Cada professor de balé tem seu estilo de aula. Fazem diferentes combinações de passos, seguindo aquela exata ordem progressiva, para se adequar a uma determinada metodologia e enfatizar o que consideram essencial. Cada um tem suas próprias abordagens e as aulas podem diferir em andamento e dinâmica. Se temos aula com alguém com quem estamos acostumados, podemos até prever o que está por vir. Prova disso foi o que ocorreu na semana passada ...


Tivemos um probleminha técnico na aula, uma de nossas televisões não estava funcionando. Havia som, mas nada de imagem. Cabe-me explicar que nesses tempos de pandemia, fomos separados em grupos e às vezes fazemos aula em uma sala sem professor. A aula é filmada e transmitida do estúdio Ashton para outros. Pois bem, mesmo sem imagem nenhuma o nosso grupo no estúdio De Valois conseguiu pegar os exercícios e fazer a aula inteira apenas com a voz e instruções do professor, sendo conduzido pela música e pelo nosso bom senso. Não sei dizer se acertamos todas as vezes, mas achei que foi uma grande conquista, algo que nunca havia experimentado antes.


Ashton studio (e la no canto direito, um set up de filmagem)

Mas se fazemos a mesma coisa todos os dias, significa que podemos entrar no modo piloto automático ou robótico? Absolutamente não. Os bailarinos precisam cultivar uma conexão corpo-mente, estar muito atentos ao que estão fazendo para criarem uma espécie de memória muscular, para termos certeza de que as coisas vão funcionar sempre! Pessoalmente, não confio na sorte nas horas desafiadoras no palco. Em sala de aula, estamos essencialmente praticando os passos que iremos realizar, de uma forma ou outra, em uma apresentação. Precisamos nos agarrar na técnica, especialmente quando ansiosos.


As aulas existem para criarmos força muscular, coordenação e confiança em nossas habilidades, entre outras coisas. A maioria dos bailarinos chega ao estúdio meia hora ou mais antes da aula começar para se aquecer (um aquecimento antes do propriamente dito aquecimento). Alguns gostam de andar de bicicleta, fazer exercícios de pilates ou alongamento, mas isso por si só não poderia nos preparar para as demandas físicas do balé clássico.

Sempre acreditei que as aulas são cruciais para uma carreira saudável e de sucesso. Especialmente na vida profissional, podem ser a única maneira de mantermos nossa técnica e "mal hábitos' sob controle. Adoraria poder dizer que aulas são sempre tão animadas e inspiradoras quanto se vê no World Ballet Day, mas é impossível manter esse nível de energia durante uma temporada agitada. Porem, sempre há algo positivo que podemos tirar delas, mesmo sentindo-nos exaustos.


Bailarinos pós- W.B.D. 2020

A verdade é que, quando estamos a portas fechadas, a aula de balé é um momento de tranquilidade, de total concentração em nós mesmos. É muito mais interno do que uma vitrine de truques e habilidades (a menos que alguém importante esteja assistindo na frente da sala). É muito mais uma espécie de meditação, uma maneira de se concentrar na respiração e se conectar com suas emoções, para certificarmo-nos de que corpo e mente estão em ordem. Queremos estar dançando de maneira orgânica e não mecânica.

É preciso muito carinho e amor. Se abordarmos o balé como um exercício espiritual além de físico, não nos concentraríamos tanto em nossa aparência, mas em como a dança te faz sentir por dentro. Mover ao som de uma bela música clássica... isso por si só pode ser tudo o que preciso para trazer de volta um pouco de energia e positividade aos meus dias.


Dançar ao som de um piano é tudo.

Treinar é uma parte vital do balé, mas não haveriam espetáculos sem os ensaios. Não importa há quanto tempo você dance profissionalmente, precisará de muitos ensaios e tempo no estúdio para preparar um papel. Faz parte de um longo processo... aprender os passos, repetir várias vezes, ver o que funciona e o que não funciona para cada indivíduo, coordenar levantadas e pegadas com seu parceiro, descobrir quando dar o gás e quando recuperar o fôlego, além de se trabalhar na interpretação e encontrar o personagem dentro de você.

A única maneira de conseguirmos resistência e fôlego é executando cada número ou coreografia do início ao fim. Não importa se vem dançando quatro atos de O Lago dos Cisnes há semanas, provavelmente se sentirá sem fôlego quando começar a ensaiar outra peça, como O Quebra-Nozes por exemplo. Nunca entendi isso, mas é fato! É como se tivéssemos que aprender a respirar de maneira diferente para tudo o que fazemos. Frequentemente, os bailarinos dizem que não há tempo suficiente de ensaio no estúdio. Nós nunca nos sentimos prontos.


Neapolitan dance, O Lago dos Cisnes © ROH

Muitas vezes me pergunto por que danço tão bem quando sou pega de surpresa e posta pra fazer algo inesperado, um papel que não ensaiei de verdade, mas suspeito que seja porque confio nos meus instintos e as coisas aconteçam naturalmente. Não sei o que esperar, por isso não tenho medo. No minuto em que começo a praticar demais, crio expectativas, analiso demais os passos, começo a construir monstros em minha cabeça. Não faz sentido, eu sei, mas por mais estranho que pareça isso acontece muito, e acho que não só comigo.

Alguns ensaios podem ser maravilhosos, outros bem frustrantes. O corpo está tenso ou cansado, você se sente completamente "off-balance" (fora de equilíbrio), sua cabeça está nas nuvens. Um bailarino profissional aprende a lidar com esses dias em que está um pouco mais vulnerável. Com o tempo, entendi que é natural termos dias bons e dias ruins. Espero a sensação ruim passar, sem criar expectativas de que tudo saia perfeito, e percebo cada vez mais como nossos pensamentos podem desempenhar um papel vital em como dançamos e o quão satisfeitos estamos.


#worldballetday

Nem sempre as coisas saem como o planejado, e é para isso também que servem os ensaios: para aprendermos a arte de improvisar, de não deixar o público perceber que algo não deu certo ou que você se sente meio esquisito aquele dia. Isso, para mim, tornou-se a diferença mais significativa entre um bailarino inexperiente e um maduro. Grandes bailarinos sempre me pareceram perfeitos, mas agora sei que até eles têm seus dias difíceis (só que são muito bons em mascara-los). A verdade final: quanto mais você desempenha um papel, mais confortável se sente e mais você confia em si mesmo para ser capaz de executalo-lo. A autoconfiança é a chave de tudo.


Para mim, dançar é uma jornada de autodescoberta, algo tão emocional quanto físico que vai além do que os olhos podem ver. É preciso fazer escolhas, seguir sua intuição e ter fé absoluta. Isso certamente me tira de minha zona de conforto e me ensina mais sobre mim do que qualquer outra coisa. Como vou reagir hoje? Como posso permanecer positiva? Com tantos anos de treinamento e experiência, deveríamos ser capazes de dominar tudo com bastante facilidade, mas há muita coisa acontecendo dentro de nossas cabeças que nos bloqueiam fisicamente. Ensaios são oportunidades de superar nossos medos e inseguranças, de treinar nossa mente e corpo, permitir-nos falhar para aprender com nossos erros.


Ensaiando La Bayadere #wbd 2018

Sempre gostei de descobrir o que outros fazem para se destacarem na sua área de trabalho, observo que tipo de vida levam. Um dos meus filmes favoritos quando criança foi Nadia (1984), a história da ginasta romena Nadia Comaneci, desde o início de seu treinamento na infância até receber sete “10s perfeitos” nas Olimpíadas de Montreal. O que gostava no filme era ver seu treinamento intenso e concentração, como Nádia agarrou uma oportunidade com as duas mãos e fez história, e principalmente admirar o vínculo que ela cria com seu treinador, Bela Karolyi. É o tipo de relacionamento que construí com a mestra Toshie Kobayashi, e algo que aprecio e procuro construir onde quer que eu esteja. Dona Toshie, aquela que sempre dizia que as aulas de balé são sagradas.


Acredito que por trás de todo campeão, existe um grande treinador e um forte sistema de suporte.


Um vislumbre dessa realidade, do nosso meio de sobrevivência, torna grandes conquistas mais “reais” e tangíveis. World Ballet Day nos mostra a maneira como bailarinos treinam e ensaiam todos os dias. Pode-se ver o esforço físico de cada um, como cada bailarino e cada companhia são únicos, mas o balé vai muito além disso. Como profissionais, cada um de nós assume responsabilidade pelo nosso trabalho, pela nossa saúde, por nossos hábitos diários. Todos trabalhamos duro e esperamos que nossos esforços dêem frutos. Queremos ser os melhores bailarinos que podemos ser, fazer o que sentimos estar ao nosso alcance e talvez além. Certamente é por isso que me esforço todos os dias.


"Até que abra suas asas, não terá ideia de quão longe pode voar." - Napoleão


Nadia Comaneci aos 14 anos em Montreal (1976).


Clique aqui para ler "The Inner Game", um dos meus primeiro blogs sobre a influencia de nossa mente na dança.


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